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domingo, 26 de julho de 2020

Bebedourense Wanderley Ribeiro, locutor esportivo que já atuou na Rádio Globo, entre outras.


O bebedourense Wanderley Ribeiro é um dos ícones do rádio de Bebedouro. Na juventude foi meia-esquerda da Associação Atlética Internacional (anos sessentas). Nessa época já trabalhava como locutor esportivo da Rádio Bebedouro. Fazia locução comercial e apresentava diariamente o programa Músicas de Orquestra, das 17h00 às 18h00 (1965, 1966, aproximadamente).

A sua voz romântica dava um brilho especial aos finais de tardes de Bebedouro. Já passou pelas maiores rádios do país na função de locutor esportivo: Rádio Globo, Gazeta, Transamérica, Capital. CBN. Jovem Pan, Tupi (RJ) e Record.

É filho do sr. Juca Ribeiro, fucionário aposentado municipal e já falecido. É irmão de Ari Ribeiro, ex-jogador e técnico da Internacional e de Wilson Ribeiro, contador aposentado da Prefeitura Municipal, entre outros irmãos.

Em 10 de novembro de 2011, Milton Neves recebeu os amigos da Band para um churrasco em sua casa. Na imagem, Fernando Fernandes, Milton e Wanderley Ribeiro (à esquerda do Mílton Neves).

( Foto: Marcos Júnior/Portal TT)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Padre (Monsenhor) José Figuls (1926-2018)


No exercício do sacerdócio, padre José não tinha apenas vocação genuína, mas também aptidão. Com mestria, conhecia a conexão exata para celebrar esse mistério, a missa (qualquer que fosse sua natureza no Ano Litúrgico).
A exemplo de poucos, tinha um jeito especial de incensar o altar nas celebrações que exigiam esse ritual. No bom sentido, sabia exorcizar aquele momento. O católico experimentado sabe a respeito do que eu falo. Ou seja, a missa contém sentidos mais amplos e profundos além daqueles que conhecemos.
A última vez que comunguei com ele na condição de celebrante, foi no dia 05/02/15, aproximadamente às 18h35min., na Matriz de São João Batista. Em seguida, na Casa Paroquial, fez o lançamento do seu livro, “Reflexões Duras e Maduras”: o itinerário cristão, 232 páginas. Portanto, compareci à missa e ao lançamento.
O livro, com sua carinhosa dedicatória, será sempre uma lembrança afetiva e histórica que guardarei com muito carinho. As jornalistas Luciana Quierati , Sara Cardoso  (Gazeta de Bebedouro) e o prefeito Fernando Galvão - apesar de alguns obstáculos a transpor - fizeram o livro acontecer.
Padre José consolidou sua missão sacerdotal tanto pelas igrejas que edificou, quanto por despertar em nós o divino no humano. Um eterno exemplo para a comunidade católica de nossa cidade. Deixou-nos hoje para tratar de um assunto de máxima importância: viver, a partir de agora, eternamente nos braços do Pai.

Crédito da imagem: Google

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Dr. Gerolino José de Souza

Ele era natural de Guanambi, estado da Bahia, mas, de acordo com seus descendentes, fazia questão de dizer que, quando nasceu, a cidade chamava-se Beija-Fulô. E acrescentava: "A partir da minha juventude, o lugar passou a chamar-se Guanambi."
Em 1919, a sede do arraial de Beija-Flor recebeu o nome de Guanambi. Nesse mesmo ano, passou à categoria de município. Vê-se aí que as informações dele procedem. Nessa época, tinha aproximadamente 14 anos de idade. Portanto, segundo critérios das Organizações das Nações Unidas (ONU), essa idade já pode ser enquadrada na fase da juventude.
Anos depois, a família, ou seja, os pais e doze filhos, mudaram-se para Pitangueiras, estado de São Paulo. Posteriormente, alguns de seus irmãos fixaram-se na região: Pontal, Terra Roxa etc.
 Faculdade de Medicina do Rio
de Janeiro
O jovem Gerolino José de Souza, com a ajuda de um tio, Antônio Paes - foi estudar Medicina no Rio de Janeiro. Lá, formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, inaugurada em 1918 e localizada na Praia Vermelha.
Após cumprir todos os protocolos para o exercício de sua profissão, começou a clinicar na cidade de Pitangueiras e região. Nesta cidade, conheceu Maria José Pitelli, sua futura esposa. 
Dr. Gerolino e esposa, Maria José
Casaram-se quando ele já residia em Bebedouro. O casal teve três filhos, Caio Afonso, Zelinda e Leni. De início, residiram na Rua Antonio Alves de Toledo esquina com a São João (prédio do Angelin Desenso próximo ao Santander, antigo Banespa).
Provavelmente a partir de 1949, iniciou a construção de sua residência definitiva, localizada na Rua Coronel Conrado Caldeira, 598 – entre as Ruas Tobias Lima (Praça Valêncio de Barros) e Antonio Alves de Toledo. Por sinal, ela enriquece a beleza do cenário urbano de nossa cidade. Salvo engano de minha parte, acredito que posso vincular sua fachada a um viés do estilo Art Déco. Este comporta várias formas que, inclusive, podem estar ligadas à outras tendências arquitetônicas. Suas características são linhas geometrizadas e, por vezes, navais. A curvatura do alpendre remete-nos às linhas navais (estilo Art Déco).
               
                    
As aparentes colunas que sustentam o teto do alpendre da casa são, na realidade, pilares. Seus topos não possuem os ornamentos que possam definir um dos tipos das colunas gregas mais comuns: Dórica, Jônica e Coríntia. A meu ver, isso não significa dar a aparência de um estilo, mas caracteriza o estilo Art Déco que se pauta pela diversidade de formas, a exemplo de uma pintura cubista.

O senhor Pedro Liberato, que foi o construtor da Fonte Luminosa “Gazeta de Bebedouro” , foi quem construiu a casa do Dr. Gerolino. O imóvel deixa-nos dois legados: um arquitetônico e outro histórico. Este último pelo motivo de ser a residência do Dr. Gerolino: profissional competente, educado, dono de uma fineza incomum e muito querido no meio social. Um médico imprescindível para seus pacientes.
Aposentou-se aos 82 anos. Desde 1934, integrou o corpo clínico da Santa Casa de Bebedouro. Como se vê, vivenciou duas fases dessa entidade: antes e após a reinauguração, ocorrida em 11/02/1953.
Na condição de pacientes, durante muitas vezes, minha família e eu estivemos sob seus cuidados. Aliás, a maioria das famílias bebedourenses passaram pelas mãos dele. Quando nasci, ele fez o parto. Meu peso: cinco quilos. Certa vez, lembrei-o desse fato. “Deu trabalho, muito trabalho.”, disse-me com sua voz serena. Despediu-se sorrindo.
Em 1973, depara-se com uma notícia triste. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, parte integrante de sua vida estudantil, é transferida para a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Logo depois, o prédio em que estudou foi demolido. Ruiu um templo da Medicina Brasileira. Foi um golpe duro para ele.
Quem o encontrasse, fosse a hora que fosse, ficava com a impressão de que ele saíra do banho naquele instante. Sempre elegante, calça e camisa de linho. Outras vezes, com o jaleco de médico, ora branco, ora azul bebê (com um corte estiloso), cabelos meticulosamente penteados, pele de uma pessoa muito aquém de sua idade.
As consultas com o Dr. Gerolino José de Souza, eram divididas em duas partes:  a primeira, após examinar o paciente, pedia os exames pertinentes. Na segunda parte, as consultas assumiam um caráter auditivo. Neste caso, dependendo da gravidade do caso, essa sua característica fazia o papel das terapias de suporte: psicólogo, psiquiatra, entre outros. E isso ajudava o subjetivo dos seus pacientes.  Com ele não tinha esse negócio de consulta visual. Ele e sua competência no exercício da Medicina sempre tiveram um chão comum a pisar.


Autor: Augusto Aguiar





terça-feira, 23 de outubro de 2018

Neuza Bezerra de Menezes Reiff


"Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.” – escreveu o cronista Rubem Braga.
Nesse contexto, incluo dona Neuza Bezerra de Menezes Reiff, mulher do Dr. Petrônio Stamato Reiff, médico cirurgião que foi um ícone de Bebedouro. Com simplicidade, ela soube ser, conforme Rubem Braga escreveu, um arco-íris à sombra do mito que era seu marido, meu amigo Petrônio. Dona Neuza é um ser humano imprescindível

sábado, 15 de setembro de 2018

Ponte Seca


Se, de um lado, a antiga Ponte Seca, outra opção para os que chegavam e partiam de Bebedouro, foi construída sobre um rio imaginário, por outro, precisou de pulmões fortes para ficar imersa sob o rio caudaloso de tudo que transitou sobre ela. A modernidade desconstruiu a velha ponte. menos em nossa memória.

Registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7.
Crédito da Imagem: Google

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Praça Valêncio de Barros: a história por trás da ficção


“A História é o alicerce sobre o qual construo meus romances”
(Alexandre Dumas – autor de "Os Três Mosqueteiros)

Nos primeiros anos do século vinte, em Bebedouro, estado de São Paulo, a área do antigo Cemitério Municipal cede lugar a um espaço público contendo uma paisagem valorizada e de práticas sociais, o Jardim Misterioso (designação motivada pela superstição popular). Este, a partir de 1912, passa a se chamar Praça Valêncio de Barros, em homenagem ao primeiro Prefeito Municipal da cidade (1908-1910), mas sem a estátua dele. O que, por sinal, deixa a impressão de um projeto não acabado.

Atualmente, não se encontra – se é que existiu - a Lei ou o Decreto Municipal da criação dessa praça. Nem na Prefeitura nem nos Arquivos Municipais nem na Câmara Municipal.  A não localização de Leis ou Decretos dessa natureza repassa à educação patrimonial local, instrumento de alfabetização cultural, um sério prejuízo. O cidadão fica sem referência quanto à questão histórico-temporal da cidade no que diz respeito às mudanças urbanísticas – e de suas nomenclaturas - ocorridas no espaço onde vive.

Veja só, leitor: a título de exemplo, em 1899, na cidade de São Paulo, capital do nosso estado, a Lei nº 416, de 28 de agosto, passa a denominar Rua Dr. Rodrigo Silva a primitiva Rua da Assembleia. Como se vê, muito antes de 1912, os logradouros eram criados através de leis.

No momento atual, um decreto ou lei municipal regularizando a questão daquele logradouro, bem como de outros em situação idêntica - seria extremamente salutar para se dar um rosto documental à História da nossa cidade.

Anos depois, em 1953, no Dia dos Professores, inaugura-se o Monumento ao Padre Anchieta (estátua daqui para frente), no centro da Praça Valêncio de Barros,  uma iniciativa do povo e dos professores daquela época. Anchieta é o patrono do ensino no Brasil, foi nosso primeiro mestre. Mas os protagonistas desse ato cometeram uma distração incrível. Se o homem é o patrono do  ensino, qual a razão da estátua estar de costas para uma agência de letramento, a escola Abílio Manoel?

Quando da inauguração da Praça Valêncio de Barros, o que impediu, na ocasião, de não se estatuar o homenageado? Não sei. Mas em qualquer tempo, ele é o único que deveria estar lá. É o mínimo aceitável para a qualidade estética e histórica do local. Dessa forma, teríamos uma Valêncio de Barros mais rica de significado.

Nota-se, portanto, que aqueles que estiveram à frente das iniciativas da criação dessa praça (1912) ,antigo Jardim Misterioso, deixaram uma brecha para um futuro erro: a instalação da estátua de Anchieta. Essa homenagem colocou o oco no lugar do vazio. 

Além dos idealizadores da criação da praça e do povo da época da instalação da estátua, devoto uma imensa admiração e respeito pelos professores, sejam eles de qualquer momento histórico, mas a homenagem ao patrono do ensino na Valêncio de Barros mostra a falta da mínima noção de o que fazer (e o que não fazer) num caso desses. Nessa praça, Anchieta está fora de lugar. E, como já disse, numa posição errada.

De mais a mais, a aura de mistério que envolve o local é algo a não ser menosprezado. Enfim, desde a época que se chamava Jardim Misterioso, a praça está sobre restos de cadáveres anteriormente remanejados para o atual Cemitério Municipal. 

Algumas pessoas, dotadas de faculdades especiais, possuem a capacidade de mediarem o contato entre o mundo material e o espiritual. Num tom confessional, a propósito da estátua de  Anchieta, comentam que, altas horas da noite, costuma resmungar a respeito das suas insatisfações. A sua presença ali – segundo  diz - mais do que caracteriza um vínculo empregatício com a Prefeitura Municipal, um pepino que – em 1953 – o povo e os professores empurraram para a municipalidade.

Desde aquela época, reclama Anchieta,  está escrevendo sem parar. Por sinal, numa posição incômoda, inclinado sobre a plataforma que representa a areia da praia. Decorrido um tempo significativo, sente os efeitos desse esforço repetitivo. 

Além disso, entre esse e muitos outros direitos trabalhistas a que faz jus, não usufrui de um descanso razoável que, a exemplo do final de uma jornada de trabalho e o começo da outra, deveria acontecer. 

Uma reclamação na Justiça do Trabalho, tendo como reclamante Anchieta,  configuraria um elevado passivo a ser pago pela Prefeitura Municipal, mesmo que a retroatividade, de acordo com a lei em vigor, se dê apenas aos últimos cinco anos.

Num outro contexto – acrescentam os clariaudientes (homens ou mulheres que ouvem vozes dos espíritos) -  ele pretende, também, fazer uma moção de desagravo aos católicos, apostólicos e romanos da cidade.

Canonizado em três de abril de dois mil e quatorze, reclama da ausência de católicos por ali.Frequentadores da praça  testemunham o fato e acrescentam que nenhum católico faz o sinal da cruz ou a genuflexão (ato de se ajoelhar) diante da imagem do agora São José de Anchieta.

Segundo o Santo, dizem os clariaudientes, essa postura denota indícios de um catolicismo que vem se submetendo à perda de fiéis. Essa religião  está sem aquela elasticidade quase unânime de outrora. Antigamente, os católicos, ao passarem diante da igreja ou da imagem de um Santo, faziam solenemente o sinal da cruz. Alguns acrescentavam a genuflexão.

Hoje, por exemplo, muitos olham para um lado; depois, para outro. Se não há ninguém olhando, eles fazem, às pressas, o sinal da cruz. Parecem inibidos com o crescimento das outras correntes religiosas cujos membros podem estar nas imediações. Ventos transformadores sopram desde o século passado. Algumas coisas, antes inimagináveis, fazem parte da rotina do momento atual em termos de religião.

Aquelas pessoas dotadas de faculdades especiais acrescentam que Valêncio de Barros costuma ter uns arranca-rabos com São José de Anchieta. Na concepção de Valêncio, não apenas na minha,  ele é quem deveria ter a estátua no centro da praça que leva o seu nome. 
- Saia daí, esse lugar é meu. – diz pra Anchieta.
- Cadê a lei? Cadê a lei? – retruca Anchieta a respeito da Lei ou Decreto Municipal da criação da Praça (1912), que ninguém acha.

Dizem também que -  após a canonização de Anchieta - Valêncio de Barros civilizou o vocabulário, mas o bate-boca continua.
São José de Anchieta sempre responde:
- Respeite-me! Hoje, sou uma estátua sagrada.  
  E acrescenta:
- No Brasil só há três Santos canonizados: Eu, Madre Paulina  e São Frei Galvão. E só este último tem poderes para      resolver as nossas  diferenças em relação à esta praça. E ao  meu passivo trabalhista também.
Tá rindo, leitor? Por quê? *

* A menção de São Frei Galvão trata-se de um paralelismo com a pessoa do atual prefeito municipal de Bebedouro, o popular Fernando Galvão. Somente ele poderia dar jeito na situação descrita no texto acima.

Crédito da imagem: Augusto Aguiar e Gazeta de Bebedouro







sábado, 18 de março de 2017

Morre Silvinho Sampaio

Silvinho Sampaio
Entre os colunistas sociais já falecidos, o professor Waldemar de Mello, que assinava-se sob o pseudônimo de Marquês de Sandoval, e Silvinho Sampaio deixaram suas marcas no jornalismo social local. Com estilos diferentes, mas deixaram. Ambos desfilaram seus talentos na Gazeta de Bebedouro, tradicional jornal local.

Em sua coluna, o Marquês de Sandoval, um dos melhores textos que Bebedouro já teve, primava pelo tom poético nas descrições das amenidades sociais. Utilizava-se de uma linguagem caracterizada por uma leveza incomum. Não incluía temas políticos.

Ao contrário dele, Silvinho, além das notícias a respeito daqueles que frequentam o barulho social – e sem perder de vista uma linguagem criativa e uma estética adequada – trazia para esse tipo de jornalismo opinativo, o colunismo social, notas sobre fatos políticos (algumas ácidas).

Como se vê, não seguia o critério de Walter Winchell, jornalista americano que, na década de 1920, criou o colunismo social. Winchell implantou, nesse estilo jornalístico, as “gossip columns” (colunas de fofocas).

A exemplo da coluna social do Marquês de Sandoval, a do Silvinho Sampaio também era concorridíssima. O primeiro, escrevia movido pelo prazer. O segundo, como a maioria dos colunistas do gênero, tinha na coluna social um negócio. Era um profissional do ramo, um publicitário. Tentava viver disso.

Colocou os pés em todos os lugares glamorosos de Bebedouro, residências ou não, quer como convidado, quer por iniciativa própria. Enfim, dispunha de um templo em que um incontável número de interessados pedia para entrar: a sua Coluna Social.

Era comum alguns colunáveis, com os quais Silvinho tinha intimidade, recepcioná-lo com um almoço ou jantar. Às vésperas dessas ocasiões, ele brincava: “Sirvam-me caviar e vodca como entrada". E acrescentava: "Esses ingredientes estão no rol das minhas preferências para acompanhar a refeição principal”. Muitos serviam.

As pessoas das rodas sociais mais sofisticadas, foco de todo colunista social, proporcionavam visibilidade a esse espaço privilegiado do jornal, a sua coluna social. Havia, também, aquelas sem nenhum vínculo com os andares superiores da nossa sociedade, mas que, por alguma razão, eram imprescindíveis para ele. Os dois tipos, de uma forma ou de outra, alimentavam o supérfluo do leitor.

À parte do exercício de sua atividade nesse suporte de texto, o jornal, ele tinha uma voz maravilhosa para o rádio. Inclusive, exerceu a atividade de radialista.

Bebedouro possui grandes nomes no rádio: Wanderley Ribeiro, locutor esportivo, sempre atuando nas melhores emissoras de São Paulo; Paulo Beringhs, conceituado profissional da dama das mídias, a TV (atua em Goiânia); Paulinho Boa Pessoa, entre outros. Ele devia ter procurado algum deles no sentido de alavancar alguma oportunidade. Mas creio que não fez nisso.

Talvez pensasse que, no século 21, o rádio, como um meio de melhorar na vida, seria uma ilusão, mas não é. Das 05h00 às 19h00, nenhuma outra modalidade de mídia o supera em audiência. Nessa faixa horária, o rádio perde para a TV apenas em faturamento.

Quando saboreava caviar com os colunáveis, ele sabia, a exemplo de poucos, que essa iguaria não se mastiga, degusta-se. E com o seu jeito peculiar, degustou também a vida, apesar dos muitos infernos astrais que vivenciou.

Fez uma fiel adesão à máxima de que daqui não se leva nada. Adotando essa atitude, viveu de uma forma desapegada. Para muitos, distraidamente desapegada.Morreu neste sábado, 18/03/17, dia do descanso, algo que gostava de desfrutar. Foi embora pela manhã. Não quis incomodar a sua musa, a noite.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Avenida Raul Furquim , uma história de amor


Quando se trata da Raul Furquim, essa avenida maravilhosa, não há mestre da pintura que supere a imagem dela nas retinas (mesmo de ponta cabeça). Caso houvesse, chegaria à plenitude. Bonita, gostosa, deixa-se querer. Inesgotável em tudo, do começo ao fim. 

Nota: Avenida Raul Furquim - Bebedouro S.P.
Imagens: Augusto Aguiar

terça-feira, 26 de julho de 2016

Sujeito oculto da História de Bebedouro S.P.


Hoje vou falar de um personagem da minha terra, o Lepo. Chamava-se Paulo, desconheço o sobrenome dele. Aqui em Bebedouro, estado de São Paulo, era uma pessoa conhecidíssima nos anos sessentas e setentas (no plural mesmo, uma década é um período de dez anos) .

A intenção não é expor, de um jeito negativo, o calvário de alguém tão singular. Apenas o situar no seu tempo de uma maneira transparente, elegante, sem comentários jocosos. Mesmo diante de uma existência pautada por infernos astrais. Quem não tem os seus?

A exemplo de todo ser humano, trabalhou. Apesar disso, o alcoolismo o afastou definitivamente das suas atividades laborais. Nesse contexto, morreu algumas décadas depois.Num país em que a Consolidação das Leis Trabalhistas pune com a dispensa por justa causa o empregado com embriaguez habitual, uma patologia e não um vício social, a esperança fica por conta da jurisprudência que, nesses casos, tem dado respostas favoráveis ao trabalhador. Ainda bem, mas isso não aconteceu naquela época com o Paulo. Esqueceram-se dele; a lei, possivelmente, enxergou apenas o Lepo. 

Assim como outros, não é mencionado nem mesmo na periferia da nossa História oficial, tampouco como uma advertência. Deixaram-no à margem de qualquer essencialidade. Lamento por isso. Mas no tempo psicológico dos seus contemporâneos sempre haverá um espaço para reflexões a respeito de todas as modalidades de vivências com ele.

Antigamente, na Sintaxe, parte da Gramática que estuda a palavra não em si, mas com relação às outras que com ela interagem para expressar o pensamento, havia o Sujeito Oculto da oração. Na condição de termo essencial da oração, o sujeito jamais poderia ser oculto. Por seu lado, a História mantém oculto o sujeito que é visível na historicidade dos fatos: o cidadão comum. Um corte pouco criativo feito pelos historiadores. 

Não se quer aqui fazer monumentos. Mas alguns cidadãos anônimos os merecem mais  do que certas pessoas que são consideradas destaques. Isso para ficarmos apenas no terreno da probidade. 

Nos seus momentos de lucidez, o Paulo - que não pertencia à família espiritual do Lepo - era um homem extremamente cortês. E culto, por sinal. Um ser humano íntegro por inteiro. 

Quando mergulhava em estados etílicos, dando lugar ao Lepo, vagava pela cidade contrariando a lógica linear dos seus passos. Como se representasse um personagem, incorporava trejeitos ao seu gestual. Nessas condições, não economizava elogios nem ofensas. Neste último caso, sejamos claros: apenas quando provocado.

Entretanto, não posso deixar de lavrar um flagrante da minha admiração pelo Paulo que, por alguma adversidade, deu vida ao Lepo (o nó da existência dele).  

Texto registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7. 
Crédito da Imagem: Bebedouro em Foco (página do Facebook)




quinta-feira, 23 de junho de 2016

Digno de um obituário ao estilo do New York Times



Morre Luiz Fernando de Oliveira: nosso Fernandinho do Banco do Brasil

Não tenho a pretensão de que este obituário se iguale aos do New York Times, os melhores do mundo neste gênero textual. Que, por sinal, biografam o obituariado. Tampouco aos dos jornais dos países anglo-saxões que também se utilizam da mesma estética.

Sendo assim, de um jeito mais simples, sem o glamour daqueles suportes de textos (jornais) citados, mas diante da imensa admiração que tinha por ele,   escrevo este texto  em memória do amigo Luiz Fernando de Oliveira, o Fernandinho (1956-2016), aposentado do Banco do Brasil. No entanto, dentro do meu coração, o seu status é para um obituário com as características dos que citei.  Quem o conheceu em profundidade sabe do caráter rico de sentido que possuía.

Estudamos no Paraíso Cavalcanti. Nas aulas de Educação Física, ministradas pelo professor Adhemar Carlos Berto, o uniforme era composto pelos seguintes itens:  camiseta regata branca, calção azul-marinho com sunga, meias brancas e os tênis escuros de cano alto. Após a física, o Fernandinho tirava a camiseta pra fora do calção (gesto que nunca me esqueço). Com isso, a sua estatura mediana dava a impressão de ter esticado um pouco. Seu irmão, o Nestor, também estudava no Paraíso. Ótimos tempos.

O Nestor, por exemplo, possuía a fisionomia de quem sempre estava rindo (reporto-me aos anos de 1966, 1967 etc.). Por outro lado, quem olhasse o Fernandinho, quer andando, quer parado, ficava com a impressão de que  ele sempre estava imerso em pensamentos profundos. Tai um detalhe que sempre me chamou a atenção. Apesar disso, possuía a alma leve: brincava, interagia de um jeito suave com todos.

Em 1991, após doze anos na condição de bebedourense ausente, retornei a Bebedouro  e o reencontrei integrando o capital humano do Banco do Brasil. Ali, exerceu várias funções.  Um cara de muita competência. Além do que, passava uma segurança incrível.

Era prazeroso conversar com ele. Não tinha pressa, dedicava atenção integral aos seus interlocutores. Aposentados, sempre nos víamos durante as suas caminhadas. Praticando essa atividade, muitas vezes, passava em frente à minha casa.

- Entra, vamos tomar um café. – intimava-o nessas ocasiões.
- Pode me esperar, virei sim. – respondia-me.
O tempo passava e ele sempre me prometendo que viria tomar um café.

Na segunda-feira, 13/06/16, dia de Santo Antônio (cujo nome original era Fernando),  por volta das 16h50min,  abri o portão social da minha casa. Moro na Rua Coronel João Manoel,  altura do Bar do Macarrão (localizado à Rua Brandão Veras). Naquele momento, o Luiz Fernando retomando o hábito das caminhadas interrompidas por um curto período passava em frente.

- E aí, Fernandinho, tudo bem? – saudei-o.

- Tudo bem, e você? – respondeu-me.

- Quer  tomar um café. – convidei-o.

Ele parou, apontou o dedo para o céu, e disse-me:
- Hoje eu tomo.

Enquanto tomávamos o café, contou-me, inclusive, sobre a compra de um carro zero (acho que naquele dia). Havia ido a Barretos liberar uma documentação para a aquisição do veículo. No entanto, às 17h30min, eu tinha de buscar  meu filho no trabalho.
Disse-lhe:
-Vamos comigo buscar  meu filho.
E fomos até o Distrito Industrial I.  

Na volta, pediu-me:
-Deixe-me na esquina da escola Conrado Caldeira, vou concluir a caminhada. Despedimo-nos. Na quarta-feira, dia 15, chega a notícia do seu falecimento.

Sobre um mesmo fato haverá sempre visões diferentes. Apesar disso, na necrologia das minhas amizades, nunca vivenciei algo idêntico. O Fernandinho veio tomar o café e se despedir de mim.  É a sensação que fica. Sendo assim, a única alternativa que tenho é jogar a casualidade no cesto do lixo. 

Autor: Augusto Aguiar


Crédito da imagem: página do Facebook de Luiz Fernando de Oliveira

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Praça Jarbas Aymoré do Prado : um equívoco involuntário

Antes de qualquer coisa, importa dizer que o professor Jarbas Aymoré do Prado foi uma pessoa diferenciada. Por sinal, dotado de uma imensa densidade humanística. Em 1965, exercia as funções de Diretor do Instituto Estadual de Educação Dr. Paraíso Cavalcanti, o Ginásio.

Naquela época, como em todas as outras, os livros didáticos eram uma sacanagem comercial. A fim de ajudar as vítimas desse sistema, seu Aymoré esticava o máximo que podia as parcelas dos livros didáticos que minha mãe e os pais de outros alunos  adquiriam através da Caixa Escolar. E vou ser sincero, ele pagava do próprio bolso muitos desses livros para os alunos carentes.

Nosso município cometeu um equívoco na tentativa de homenagear o professor  Jarbas Aymoré. O Decreto nº 536, de 12 de outubro de 1970, publicado na edição nº 2.376, de 18/10/1970, da Gazeta de Bebedouro, tem a seguinte redação: “ARTIGO 1º - Fica denominado ‘Praça PROF. JARBAS AYMORÉ PRADO’,  o logradouro público onde se acha localizado o edifício da Agência dos Correios e Telégrafos desta cidade (...)”.

O local destinado à aplicação do Decreto 536  é propriedade da União, Nele, há o prédio onde funciona a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, criada em 20 de março de 1969 (a criação dos Correios no Brasil é outra coisa).  

Por outro lado, o que o relator do texto quis dizer com “... o logradouro público onde se acha localizado o edifício da Agência dos Correios...”?Considerando a suposição de que a área destinada à praça fosse da municipalidade, ele grafou logradouro público no sentido de espaço público, livre, franqueado ao uso comum dos cidadãos.

Mas aquela área, de acordo com a escritura do imóvel, não é da prefeitura, mas dos Correios (patrimônio da União). Apenas possui – com um nível aceitável de qualidade estética - o aspecto de um espaço público municipal, disponibilizado  por aquela empresa aos usuários que acessam as suas dependências. Essa é a finalidade daquele local. Na prática, o seu uso é de caráter geral, apenas isso.

 A "criação dessa praça (?)" se trata, portanto, de um equívoco. Bem intencionado, claro. Aliás, merecidamente bem intencionado. Caso o autor da homenagem fosse a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, aí, sim, teríamos uma situação correta. Há, entretanto, esse caminho. Revogar o Decreto e ela  fazer a homenagem. Não deve haver solução mais prática do que essa. "Espaço Jarbas Aymoré do Prado" seria uma denominação coerente. 

Alguns anos depois, a questão da criação da praça gerou um desconforto a outro professor, o senhor Manoel Izidoro Filho, vizinho dos Correios. Na sua forma de entender, o local era um logradouro público.

Em 2002, ocorreu a reforma mais recente do prédio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Nessa ocasião, foram instaladas as grades protetoras ao redor dele. Pelo lado da Rua Antônio Alves Toledo, a grade acompanha o alinhamento dos muros das demais edificações;  a instalada pelo lado da Rua XV de Novembro, onde fica o imóvel do professor Izidoro, não acompanha.

Neste último caso, por quê? Porque abriu-se um precedente ao professor. A grade, em relação ao alinhamento da residência dele, foi recuada. Esse procedimento foi revestido do caráter da excepcionalidade. E vou explicar o motivo: 

O portão do seu imóvel seria aterrado pela rampa para pessoas com deficiências. 
O recuo da grade permitiu ao professor e aos seus familiares a preservação dos seus laços afetivos com o lugar a ser aterrado. Ao mesmo tempo, preservou-se a continuidade da utilização do portão do alpendre que dá para a “praça” . Por sinal, um alpendre aconchegante e histórico. Mas para preservar isso tudo, alguns obstáculos tiveram de ser transpostos.

Tentei dissuadir o engenheiro dos Correios, Dr. Fábio Scatenna (já falecido), da intenção de isolar o portão. De início, não obtive sucesso. Na condição de meu superior imediato, determinou que o acompanhasse a fim de comunicar o fato ao professor.
- O que você pode fazer por mim, Augusto? – perguntou-me    seu Izidoro com os olhos cheios de lágrimas.

Fiz um sinal para ele, apenas isso. Em seguida, saí a campo para resolver o problema.
Alguns dias depois, o engenheiro volta e me diz:
- Vamos recuar a grade em relação ao alinhamento que seria    correto. Com isso, não 
haverá nenhum embaraço ao              vizinho.
- Já estou sabendo. O vizinho também. – respondi.

Portanto, a rampa ali hoje existente foi construída num estilo arquitetônico diferente daquele inicialmente projetado. Eu tive a oportunidade de ver o reflexo dessa atitude de bom senso estampada na expressão de satisfação da fisionomia do professor Izidoro.

Não em uma ordem necessariamente de prioridade, uma vez que todos eram de caráter urgente, mas os motivos da opção pela grade ao redor do prédio  foram estes:

O primeiro, conter o vandalismo no local. Por sinal, abusivo, a exemplo de todo vandalismo. Pelo mesmo motivo, a Fonte Luminosa foi gradeada. O segundo, acabar com as cenas de sexo que aconteciam, durante a madrugada, entre as colunas sobre o patamar da escada que contorna o prédio pela parte da frente e lateral externa.  

Graças ao bom senso da direção daquela empresa pública, que reviu sua intenção inicial, tudo continua como era: a pracinha que leva o nome do professor Aymoré  e o portãozinho do seu Izidoro. 

Falta apenas a revogação do decreto da criação da Praça e, a seguir, os Correios criariam o "Espaço Jarbas Aymoré do Prado". Uma bela maneira de se pôr, corretamente, os pingos nos is.

Autor: Augusto Aguiar



Texto registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7.
Crédito da imagem: Augusto Aguiar





sábado, 9 de janeiro de 2016

1961: A Inauguração da Fonte Luminosa Gazeta de Bebedouro

No final da tarde de 30 de dezembro de 1961, data da inauguração da Fonte Sonora e Luminosa Gazeta de Bebedouro, a Fonte Luminosa, a cidade ficou sem energia elétrica. O fato gerou ansiedade e as pessoas se perguntavam: “E a inauguração da Fonte?”.  Para alívio geral, a energia elétrica foi restabelecida menos de uma hora depois. Os semblantes, então, ficaram aliviados.

Dia oficial do banho, o sábado coincidiu com a data do evento. Talvez, por isso, a adesão àquele  componente da higiene pessoal teria sido maior do que a quantidade de quilowatts disponíveis. Assim sendo, nesse dia, o banho de assento não teve uma boa audiência. Em consequência, devido à sobrecarga, a rede de energia elétrica entregou os pontos.

Ironizar a questão do banho era comum na época. Quer isso dizer que  a semântica aqui empregada a respeito dele não é deboche, apenas resgata um costume de brincar com as pessoas que levavam esse item da higiene pessoal em banho-maria. Ou seja, prolongavam um pouco a data entre um banho e outro.

A noite chega e o momento da inauguração também. De repente, no sentido vertical e com uma boa vazão,  jatos de água  coloridos, contínuos e compridos rasgam o ar. Houve um coro de exclamações de espanto e admiração que ainda ressoa na memória de muitos dos presentes.

Nos anos 60, alguns bebedourenses foram ganhar a vida na América do Norte. Afonsinho Cabeleireiro, seu irmão Mazzaropi, entre outros. Um senhor que levava brasileiros para trabalharem nos Estados Unidos assistia à inauguração com a família. Uma adolescente americana os acompanhava.
-Rain Curtain. – ela exclamou . Em seu idioma significa: “Cortina de Chuva”.

O que aconteceu? Provavelmente, os jatos de água da Fonte contêm em suas partes superiores - as cristas -  gotas de água menores do que as da base; sendo assim, ficam menos resistentes ao vento. Este as empurra com facilidade  e com isso surge uma espécie de  cortina de água semelhante à névoa ou ao chuvisco. 

Os jatos molharam de leve o público que estava na área para a qual a cortina de água pendeu. Por isso, houve um segundo coro de exclamação de espanto – nenhum de admiração – emitido pelas pessoas aspergidas pela água. Naquele momento, quem tomou e quem não tomou banho antes de ir para a inauguração experimentou um exemplar banho de gato.

Com um estilo arquitetônico arrojado para a época - sua geometria é de  um polígono estrelado - a Fonte Luminosa localiza-se à Praça Barão do Rio Branco. Integra-se a ela como seu elemento fundamental, apesar de compartilhar espaço com outros destaques,  o tamarindeiro e a Concha Acústica. Dependendo do ângulo, a igreja Matriz faz parte desse belo conjunto visual. No entanto, sua localização é na Praça Monsenhor Aristides. Ambas são separadas pelo que seria a Rua Prudente de Morais, caso não houvesse as praças.

Além disso, emerge a arquitetura de conteúdo sentimental, aquela do tempo psicológico. Trata-se da sucessão de estados internos de uma pessoa. Isso ocorre com gerações e gerações que atravessaram o tempo de existência da nossa musa, a Fonte. São, portanto, recordações inapagáveis no espaço entre a Fonte Luminosa e alguma coisa dentro de cada um.

A realidade exige a presença. Como a realidade ficou para trás, a sensação é de algo como se fosse uma folha de caderno arrancada, amassada e jogada fora, mas que voltasse a fazer parte dele  como se nada tivesse acontecido.  Cenas inesquecíveis  escondidas no fundo de nossas memórias reaparecem... Ora se expandem, ora se encolhem retratando fatos que aconteciam: sem dia, sem horário e, às vezes, sem roupa.

Num dia calmo, vivencie um momento de contemplação: fique a sós com a Fonte Luminosa. Talvez você se lamente pelas grades fincadas ao redor dela. Tantas recordações e tantas projeções agora estão prisioneiras.  Mas, num diálogo de silêncio, a Fonte dirá:
- As grades preservam suas lembranças e anseios; sem essa proteção, eu quase não existiria mais. 
Apesar de sonora, fala baixinho. Ali tão perto, a Concha Acústica não pode ouvir nem escutar a conversa. Senão, entra em pânico. Ela não tem grades.


Texto registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) 
Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7. 
Crédito das imagens: Google




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