Mostrando postagens com marcador CRÕNICAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CRÕNICAS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Câncer : não colabore com ele


Naquele Natal, não brindei. Depois, aprendi que, constatada uma adversidade, as primeiras batalhas perdemos para nós mesmos. Com isso, assimilei o jeito de aparar e aplicar golpes. Desistir, nunca. 

Cada vez que volto pra casa, após passar por exames doloridos ou por internações, trago a sensação de que deixei para trás um adversário nocauteado. 

Registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ponto G : a matriz cortical



Recebi um e-mail de uma leitora registrando um queixume contra o marido. Então, vejamos: “Meu marido ignora todos os investimentos que faço em meu corpo. Essa desatenção, da mesma forma, contempla meu incessante desejo de agradá-lo com um vestuário chique. Não sei mais o que fazer para despertar nele um maior interesse por mim. Será que não sou bonita? Anexo uma foto recente. Esse colunista, na condição de poeta, poderia dar-me uma dica?”

Apesar do assunto ser afeto a um consultório sentimental, por uma questão de delicadeza, respondi: "Prezada leitora. O que seria um ser humano (homem ou mulher) bonito para um amor romântico que se sustente definitivamente?

E continuei:
- Uma pessoa bonita para um amor romântico é aquela que consegue materializar a realidade psíquica da outra e vice-versa. Ou seja, deixando de lado o “excesso” de silicone, botox, roupas de grife etc., o ideal é um toque, um afago, na matriz cortical do outro. Ou seja, na subjetividade.

A meu ver, os investimentos que faz em seu corpo e em seu guarda-roupa – não que sejam desnecessários – mas, com certeza, deixam mais interessados em você seu cirurgião plástico, sua esteticista e as donas das butiques (esta é a grafia certa na língua portuguesa) de sua preferência.

A leitora poderá discordar de minha opinião. Caso positivo, deixo-lhe a seguinte pergunta:
- Por que, em alguns casos, o patrão transa com a empregada? Noutros, a patroa com outro qualquer? Por que John Lennon devotou todo seu amor à esposa Yoko Ono? Eles viveram  dentro de um relacionamento fechado, Por que, muitas vezes, mulheres belas escolhem parceiros feios?   Por que um governante – que é um só – pode manter submisso o povo, que são todos? Por quê? Sacou, cara leitora?"

Crédito da imagem: Google

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Minha mãe : 1927-2017


Ainda criança, eu não entendia, mas tinha imenso fascínio pelo poder que minha mãe tinha para enfiar o mar dentro de uma concha para eu ouvi-lo. No momento certo, ela o tirou de lá e me ensinou o que aconteceria, daí pra frente, fora da concha.

Minha infância foi maravilhosa. Não por tudo o que tive nela, mas porque minha mãe, dona Clara, ensinou-me a buscar o que me faltava. Preparou-me  com mestria para embrenhar-me pelo cipoal dos desafios (por mais lenhoso que fosse).

Ainda menino, quanto mais alto minha pipa subia, a linha ficava com mais força. Com isso, antes do catecismo, aprendi que lá em cima há Algo com uma força inigualável. Quem empina pipa sabe disso. Quem não empina, já ouviu falar. Aqueles com raciocínio cartesiano não acreditam. Eu prefiro acreditar. Essa foi, entre milhares, outra lição que aprendi com minha mãe.

A exemplo de toda mulher, tinha uma queda pelas flores. Muitas vezes, na impossibilidade de um presente, eu colhia flores pra ela. Naquele tempo, minhas moedas ainda eram de chocolate, não davam para comprar nada. No entanto, o buquê de flores é um esteio emocional para quem o dá e para quem o recebe. Quando recebido de uma criança, adquire uma dimensão sagrada. Nessas horas, esse era o sentimento de minha mãe.

Ela faleceu no dia 10/11/17, às 16h28min. Na solidão do velório, durante a madrugada do dia 11, lembrei-me de muitos fatos, desde meu tempo de criança, que vivemos juntos.

Entre muitas coisas, lembrei-me desta passagem mais recente: “Quem é aquele homem que fica ali escrevendo o dia todo?” – ela perguntava nos últimos anos. Essa foi minha maior tristeza como escritor amador. E como filho também. Imaginava: “Quando teria sido a última vez que ela me olhou consciente?”.

Filho único, instaura-se em minha vida uma tristeza medular, maior do que qualquer outra: sua ausência física definitiva. A realidade exige a presença. Como a realidade ficou para trás, passo a conviver com as lembranças, ou seja, o tempo psicológico. Este é a sucessão dos estados internos de uma pessoa. Sendo assim, daqui para frente, quer seja durante o dia, quer seja durante a noite (na insônia de um adulto), ela estará em meu pensamento. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Homo Sapiens et Demens


O estilo arquitetônico de um edifício Panóptico - utilizado em prisões, sanatórios, internatos etc. - é um círculo dividido em pequenas celas. Estas possuem janelas para o exterior, a rua, e para o interior da edificação, o pátio. Conclui-se, portanto, que não há sombras no interior delas.

No centro do pátio há uma torre. Nela, fica um vigilante. Venezianas e labirintos interligam as salas da torre, eliminam a luz, ruídos, impedindo a localização do vigilante. Ele tudo vê dentro das celas, mas não é visto. Apenas pressentido.

Em 1789, quando esse edifício foi projetado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham, o circuito interno de TV não existia. Óbvio, não é?

No momento atual, pensar a humanidade dentro de um edifício Panóptico e submissa aos rigorosos poderes dominantes, muitas vezes não identificados,  é profundamente desconcertante. Infelizmente, essa é a realidade.

O Homem é dominado pela violência econômica, física, trabalhista e psicológica – entre muitas - desses poderes, resultado da diferente compreensão que cada ser humano tem do outro, apesar de sermos seres de linguagem. Com base nessas diferenças, surge, inclusive, a legitimação de injustificadas razões históricas.

Algumas vezes, os cenários do acerto de contas desse desrespeito às diferenças – as guerras – são suavizados através de uma estratégia que adia por pouco tempo o sofrimento e/ou a morte das pessoas: a Trégua Humanitária (?).

Dentro desse contexto, existe uma imagem digital que mostra um menino negro sob o sol, talvez africano, com uma pequena ovelha nos braços. Ele é um pequeno pastor e, com certeza, sem as sandálias dos pastores bíblicos. Portanto, descalço.

Nada se sobrepõe à preocupação de sua expressão fisionômica em proteger a ovelhinha. Esta exibe um olhar doce, peculiar da paz dos protegidos. Nem mesmo o avião de caça - predador de vidas humanas - sobrevoando sua região, municiado com mísseis e, quem sabe, batizado de “Herodes”. É comum os pilotos batizarem suas máquinas mortíferas com nomes fortes.

Que bom se o avião de caça carregasse a Paz, a exemplo do menino pastor que, impotente diante do poder que esmaga seu país, agasalha nos braços cheios de humanidade a ovelha que se entrega à pureza do abraço protetor.Seria Natal? Não sei. Mas o menino nos lembra da sacralidade do Natal. A maneira como vive e procede é a mesma  de alguns personagens natalinos, os pastores.

No próximo Natal, caso esteja vivo, ele estará novamente no cenário  semelhante ao presépio. Mas outro menino, o sírio Aylan Shenu que, aos três anos – fugindo da guerra - morreu afogado no mar Egeu (Síria), nunca mais estará em seu habitat natalino.  Apesar disso, a grandeza dele e da dimensão simbólica que passa a representar não couberam naquele mar que, envergonhado, o devolveu a terra firme.





sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Morre Luiz Melodia (1951 - 2017)

Na juventude, Luiz Melodia tinha um quê do João-do-Pulo. Pouco depois, seus lábios ficaram meio que "simonalizados", ou melhor, parecidos com os do Wilson Simonal, outra fera.
A música Feitio de Oração entregou-se a uma voz grave e aveludada, a de João Nogueira. No entanto, morria de amores pelos timbres preciosos de Luis Melodia. Hoje, ambos cantam numa outra frequência.
Você já viu uma rouquidão afinada? Ele tinha. Com ela, cantou samba, soul e até blues.Sua extensão de voz tratava as notas musicais com a delicadeza que o câncer não teve com ele.


Crédito: Google


.






domingo, 25 de dezembro de 2016

Minha noite de Natal

Ainda não consegui viver no mundo que construí quando brincava com meus brinquedos. Se ainda existe, não sei. Mas, mesmo adulto, não desisti dele. No entanto, algumas vezes, penso que não saiu de dentro de mim e o procuro aqui fora. Ou, então, está guardado no baú de brinquedos que não acho mais.
Apesar disso, esta noite, na minha solidão, o céu caberá em minhas retinas. Quando apontar em algum lugar dele, Papai Noel também. Enfim, ele sempre passou enquanto eu dormia. Hoje, espero-o na insônia de um adulto. E meio escondidinho. Costumam rir de adultos que ainda acreditam em Papai Noel.
Por isso, muitas vezes, o adulto olha o mundo com um jeito sério. É obrigado a colocar certas ternuras pra dormir. Prefiro acordá-las, pelo menos nos momentos convenientes. No Natal, por exemplo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar

Hoje e nos dias que se seguirão à sua morte, matérias a respeito da brilhante obra literária de Ferreira Gullar (1930-2016) estarão em todos os suportes de textos: jornais, revistas etc.
Diante disso, prefiro mencionar um fato que aconteceu no início da carreira dele. Morava numa pensão sossegada, Rua Buarque de Macedo, 56, bairro do Catete no Rito de Janeiro, um sobrado carcomido, com jardim, escadinha até a varanda, sem placa, a 400 metros do palácio do presidente da República.
Dividia um quarto com Carlinhos de Oliveira, futura estrela da crônica carioca (escreveria no Jornal do Brasil) e com Oliveira Bastos, aspirante a crítico literário. Um tabique dividia o cômodo em duas partes. Gullar dormia na menor, num colchão de capim compacto e ressecado.
Aos domingos, sem refeições na pensão, os três iam ao restaurante do chinês Shio, na Rua do Riachuelo, perto da Lapa. Adoravam o “arroz com galinha tite”. Comiam lambendo os beiços, mas intrigados com o nome do prato. Seria alguma palavra da culinária chinesa? Shio, o proprietário, gritava para o cozinheiro: “Sai três tite com arroz!”. E lá vinha um trivial frango ensopado.
Um dia Gullar perguntou a Shio por que “galinha tite”?
- Vou mercado, “Plaça” Quinze, tem num canto galinha tite, tite..Compro mais barato, né?
Triste porque doente. Ninguém comprava, exceto o chinês. Nunca mais eles fizeram refeição lá.

Fonte: Órfão da Tempestade, a vida de Carlinhos de Oliveira e da sua geração, entre o terror e o êxtase.
Autor: Jason Tércio.

Imagem: Google

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Retratos 3 x 4

"Se pudesse visitar o passado, muita coisa faria igual; outras, de um jeito diferente. Algumas, nunca as faria. Mas vem cá: aí tudo ficaria muito certinho, sem medo, sem aquele sabor de aventura, perigo, ousadia. Enfim, com gosto de nada fora do lugar... Não seria legal, por exemplo, revestir as recordações das casas onde morei com as tendências atuais, estilo futurista, pintadas de um jeito bacana, ar condicionado, sauna etc.
Se fizesse isso, entraria em alguma casa errada lá no meu passado. Não acharia os retratos três por quatro que ganhei, tampouco os que me devolveram. Eu não devolvia, achava indelicadeza. Excepcionalmente, devolvia aqueles que o irmão mais velho da menina ia buscar.

Mas ainda procuro aquele retrato que foi amassado, rasgado, picado, jogado sobre mim como confete. Nem a força da minha memória o reconstitui. Ele não tem restauração. O pior é que eu só tinha aquele.
A moça era brava. Tudo isso aconteceu porque disse a ela que sabia abrir segredos de cofres. Para dar um exemplo, comecei mexer no segredo do fecho do sutiã dela. Você conseguiria abrir sem dificuldade o segredo de dez cofres, mas aquilo lá, não. Perdi o meu retrato. Perdi a namorada. Anos depois, casou grávida. Sinal dos tempos".
P.S. O que está escrito acima, trata-se do trecho de um e-mail que um amigo de adolescência me enviou. Nele, relembra as suas experiências amorosas da juventude.

Texto registrado na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7. 
Imagem: Google

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Digno de um obituário ao estilo do New York Times



Morre Luiz Fernando de Oliveira: nosso Fernandinho do Banco do Brasil

Não tenho a pretensão de que este obituário se iguale aos do New York Times, os melhores do mundo neste gênero textual. Que, por sinal, biografam o obituariado. Tampouco aos dos jornais dos países anglo-saxões que também se utilizam da mesma estética.

Sendo assim, de um jeito mais simples, sem o glamour daqueles suportes de textos (jornais) citados, mas diante da imensa admiração que tinha por ele,   escrevo este texto  em memória do amigo Luiz Fernando de Oliveira, o Fernandinho (1956-2016), aposentado do Banco do Brasil. No entanto, dentro do meu coração, o seu status é para um obituário com as características dos que citei.  Quem o conheceu em profundidade sabe do caráter rico de sentido que possuía.

Estudamos no Paraíso Cavalcanti. Nas aulas de Educação Física, ministradas pelo professor Adhemar Carlos Berto, o uniforme era composto pelos seguintes itens:  camiseta regata branca, calção azul-marinho com sunga, meias brancas e os tênis escuros de cano alto. Após a física, o Fernandinho tirava a camiseta pra fora do calção (gesto que nunca me esqueço). Com isso, a sua estatura mediana dava a impressão de ter esticado um pouco. Seu irmão, o Nestor, também estudava no Paraíso. Ótimos tempos.

O Nestor, por exemplo, possuía a fisionomia de quem sempre estava rindo (reporto-me aos anos de 1966, 1967 etc.). Por outro lado, quem olhasse o Fernandinho, quer andando, quer parado, ficava com a impressão de que  ele sempre estava imerso em pensamentos profundos. Tai um detalhe que sempre me chamou a atenção. Apesar disso, possuía a alma leve: brincava, interagia de um jeito suave com todos.

Em 1991, após doze anos na condição de bebedourense ausente, retornei a Bebedouro  e o reencontrei integrando o capital humano do Banco do Brasil. Ali, exerceu várias funções.  Um cara de muita competência. Além do que, passava uma segurança incrível.

Era prazeroso conversar com ele. Não tinha pressa, dedicava atenção integral aos seus interlocutores. Aposentados, sempre nos víamos durante as suas caminhadas. Praticando essa atividade, muitas vezes, passava em frente à minha casa.

- Entra, vamos tomar um café. – intimava-o nessas ocasiões.
- Pode me esperar, virei sim. – respondia-me.
O tempo passava e ele sempre me prometendo que viria tomar um café.

Na segunda-feira, 13/06/16, dia de Santo Antônio (cujo nome original era Fernando),  por volta das 16h50min,  abri o portão social da minha casa. Moro na Rua Coronel João Manoel,  altura do Bar do Macarrão (localizado à Rua Brandão Veras). Naquele momento, o Luiz Fernando retomando o hábito das caminhadas interrompidas por um curto período passava em frente.

- E aí, Fernandinho, tudo bem? – saudei-o.

- Tudo bem, e você? – respondeu-me.

- Quer  tomar um café. – convidei-o.

Ele parou, apontou o dedo para o céu, e disse-me:
- Hoje eu tomo.

Enquanto tomávamos o café, contou-me, inclusive, sobre a compra de um carro zero (acho que naquele dia). Havia ido a Barretos liberar uma documentação para a aquisição do veículo. No entanto, às 17h30min, eu tinha de buscar  meu filho no trabalho.
Disse-lhe:
-Vamos comigo buscar  meu filho.
E fomos até o Distrito Industrial I.  

Na volta, pediu-me:
-Deixe-me na esquina da escola Conrado Caldeira, vou concluir a caminhada. Despedimo-nos. Na quarta-feira, dia 15, chega a notícia do seu falecimento.

Sobre um mesmo fato haverá sempre visões diferentes. Apesar disso, na necrologia das minhas amizades, nunca vivenciei algo idêntico. O Fernandinho veio tomar o café e se despedir de mim.  É a sensação que fica. Sendo assim, a única alternativa que tenho é jogar a casualidade no cesto do lixo. 

Autor: Augusto Aguiar


Crédito da imagem: página do Facebook de Luiz Fernando de Oliveira

sábado, 21 de maio de 2016

Pelé


Em face de problemas financeiros advindos da falência da Construtora Netuno – empresa associada à Sanitária Santista, da qual era também proprietário, juntamente com seu ex-companheiro Zito,  e ainda a súbita crise que se abateu sobre a Fiolax carregando nessa corrente de insolvência até o Centro de Fisioterapia que expunha seu nome no alto do expediente da Direção, Pelé não teve outra alternativa senão optar pela proposta supermilionária que o New York Cosmos lhe fez. 

A proposta, examinada na sua superfície esportiva, significou um compromisso de três temporadas jogando futebol nos Estados Unidos, o equivalente a seis meses de atuação em cada uma, ao todo 85 partidas, ganhando 6 milhões de dólares (48 milhões de cruzeiros) e mais 67 por cento do merchandising que seu nome significa em áreas comerciais diversas.
Pelé: seis milhões de dólares o preço de um mito
Reportagem de GERALDO ROMUALDO
Revista O Cruzeiro – Ano 1975

Um mito em apuros

Constrangido pelo volume surpreendente de publicações na imprensa, envolvendo seus negócios particulares, Pelé não vacilou nem mais um instante em topar o desafio lançado pelo Cosmos. Era um direito que tinha independente da sólida imagem construída, anos após anos, de homem de uma palavra só – imagem irretocável de um mito invulnerável que se projetou com grandeza, no país e no mundo.

Mas há momento em que o mito, por mais inconfundível que ele seja, se veja tentado a voltar atrás. Pois foi o que fez. Então, a partir desse escândalo, Pelé não mais vacilou em embarcar depressa na canoa do Cosmos – e por que não? Afinal, se se tratava de um namoro tão velho, que motivo havia para não alcançar o casamento?

Foi na Jamaica, por volta de 1972, que Pelé manteve seu primeiro contato com os poderosos empresários do lendário Cosmos. Ele já havia se despedido da Seleção Brasileira – conta um inconfidente, seu amigo de Santos – e já cumpria contrato promocional com a Pepsi-Cola, quando o procuraram em nome da Warner Communication, uma agência de imensos recursos nos Estados Unidos, com múltiplos interesses tanto na área do cinema como do rádio e da televisão. O que os emissários da Warner queriam é saber se ele estaria disposto a tirar do marasmo o incipiente futebol norte-americano.

Embora os dólares da Warner soassem forte e que a oferta merecia todo respeito, Pelé pediu tempo para pensar. Os homens da Warner, pacientes e obstinados, não se recusaram a atendê-lo. A rigor, o que dificultou basicamente o prosseguimento das demarches naquele instante foi o fato de o contrato com o Santos ainda manter-se em vigor. Uma vez  que se libertasse de todo – o pressentimento foi geral – passaria a calcular melhor o alcance do convite vantajoso, mesmo que tivesse de romper uma palavra que gostaria de conservar pelo resto da vida.


Um adeus sem certeza

No dia 2 de outubro de 1974, Pelé fez suas despedidas do futebol. Foi um dia de muita festa e muita lágrima. O estadinho do Santos estremeceu de gente para vê-lo pela última vez. Sua apresentação foi digna e estudada. No intervalo do primeiro para o segundo tempo, seguido por um batalhão de meia centena de fotógrafos, ele se ajoelhou no centro do campo, estendeu os braços para a multidão e chorou copiosamente.

A dor da saudade não duraria muito. Persuasivos e determinados, carregados de dinheiro, os empresários da Warner voltaram novamente à carga. Desta vez, em Santos mesmo. Presente, a fim de garantir o êxito dos entendimentos, a turma de maior peso da Warner e do próprio Cosmos: Clive Toye, vice-presidente, e Nesuhi Ertegum, gerente de negócios. A cantada não poderia ser mais infalível. Clive soltou a primeira nota:

- O importante é que você passe três temporadas conosco, levando uma boa compensação.
- Quanto? – indagou Pelé, os olhos rútilos.
- Três milhões de dólares.
Pelé venceu o estremecimento com a seguinte desculpa:
- Bem. Vou ter que conversar primeiro com minha mulher. Se ela achar que vale a pena, voltaremos a nos entender.
Mais tarde, consultados prós e contras, Pelé tornou a receber Toye em seu escritório.

- Então, vamos ou ficamos? – indagou, sinuoso, o empresário.
- Depende. Se o Cosmos me pagar o dobro da oferta proposta, é provável que acertemos as contas.
- Seis milhões de dólares?
- Sim, senhor, seis milhões de dólares.
Clive Toye teve um gesto de enfado, as mãos caindo pelo corpo pesado:
- Não podíamos reavaliar esse detalhe?
Pelé disparou sua flecha bem no alvo:
- O senhor não é o vice-presidente executivo do Cosmo? Pois avaliemos agora!
Mas o gordo Toye, a pretexto de novas consultas, solicitou um breve adiamento.
- De acordo, Pelé?
- Perfeito. De pleno acordo.

Em casa, regressando de uma excursão, Pelé confessaria a Rose e seus assessores mais íntimos que só havia “pedido aquilo tudo para ver se o gringo desistia”.
- Sabe o que é, eu já deixei o futebol e não sinto nenhuma vontade de voltar.
Estava tenso e preocupado com o futuro:
- Tem outra coisa: juro que não me sinto inclinado a jogar futebol como profissional. Foram 18 anos de carreira e emoção. Será que isso não basta?

O sacrifício da família

Aconteceu que os norte-americanos não estavam dispostos a ceder, e realmente não cederam. Nesse ritmo, menos de um mês após o último encontro com Toye, Pelé tornou a ser ansiosamente procurado em casa; agora o que a Warner desejava é que o contrato fosse assinado o mais rápido possível, na base de cinco milhões de dólares.

Pelé mergulhou na mais profunda indecisão:
- O problema – confessaria – é que com isso irei sacrificar minha família, obrigar minha mulher e meus filhos a viverem fora do Brasil, coisa que nunca quis fazer, vocês sabem melhor que eu!

Finalmente, chegou a hora de se definir. Sozinho a argumentar romanticamente que não havia se casado para sacrificar a família, terminou voto vencido (por seis milhões de dólares). E aí a primeira providência foi avistar-se com o professor Altivo Ferreira, economista e secretário da Fazenda Municipal em São Paulo, para conhecer detalhes sobre o U. S. Tax – a taxa de imposto de renda nos Estados Unidos.

O professor Altivo não lhe negou as informações solicitadas, tendo demonstrado que, carecendo de rigor nas cláusulas do compromisso prometido, pouco lhe iria sobrar do montante dos Seis milhões de dólares. Mas os persistentes homens do Cosmos não se entregaram. Como no início, mostraram que o negócio poderia ser feito de outra maneira.
- Os impostos não impedirão que façamos esse trato.

Nesuhi Ertegum, perto de Rafael de la Sierra, outro membro da comitiva, foi logo advertindo:
- Não há problemas, Mr. Pelé!
E partiu para o deslumbramento:
- Ora, amigo, quem tem o Frank Sinatra, o Bob Dylan, o Mike Jagger, os Rolling Stones, o Paul Newman e o Kubrith sob contrato, jamais admitirá transformar o Rei do Futebol num boneco de sua trupe.

Como de outras feitas, os grandes olhos de Pelé brilharam intensamente, enquanto do seu lado direito e esquerdo corriam abraços e manifestações de contentamento.
- O seguinte – ele disse : primeiro eu quero que me deem cinquenta por cento de todo o merchandising a que tenho direito sobre a marca Pelé. E isso, vamos deixar bastante claro, durante seis anos. Algum problema?

Resposta taxativa de De la Sierra:
- Sem problemas.
- Ainda mais: quero que a Warner se comprometa a trabalhar junto com a Pepsi-Cola. Essa é uma questão delicada, muito importante para mim, de maneira que não abrirei mão dela em nenhuma circunstância!
- Ok, Ok. Sem problemas, Mr. Pelé. A voz de Toye era firme e confiante.

Pelé não ficou nisso. Quando se esperava que ele não tinha mais obstáculos a apresentar , de novo levantou a voz e declarou:
- Isto que agora vou lhe dizer é superimportante: jamais me obrigue a fazer propaganda a respeito de álcool ou cigarro.
- Certo. Sem problemas.

Nesuhi Ertegum, envolto na fumaceira desprendida do Havana de Toye, apertou o gatilho pela penúltima vez:
- Quer dizer que estamos entendidos, não há mais nada, tudo Ok? Pelé mexeu-se na cadeira, inquieto e sorridente:
- Por favor. Um pouco de tolerância. Negócios são negócios.
- Sem problemas, Mr. Pelé...

E Pelé:
- Vou querer uma garantia antecipada de cinco por cento nas ações do Cosmos, certo? É o seguinte: hoje o time vale quinhentos mil dólares, mas amanhã, poderá valer dez vezes mais.
- Sem problemas, meu amigo. Ok. – respondeu um dos representantes do Cosmo.
Os olhos cansados de sono, Clive, Ertegum e De la Sierra preparam-se para ir embora.

- Um momento, por favor.
Era Pelé, de novo.
- Vou precisar de um escritório no Rockfeller Center, um Cadillac para mim e minha família, avião para assuntos urgentes, colégio para as crianças e apartamento central, bem central. De resto, a garantia de um intenso intercâmbio esportivo Brasil-Estados Unidos e uma verba que se destine à Fundação Pelé, para crianças pobres se desenvolverem no ensino e nos esportes, perfeito?
- De acordo, sem problemas. – respondeu Ertegum. Nesse contexto, Pelé assinou o contrato com o Cosmos.

Pois é, meu caro leitor. E assim, tudo continuou às mil maravilhas na vida do craque brasileiro que, em certa época da sua vida, não reconheceu afetivamente (a justiça reconheceu) uma filha fora do casamento,  Sandra Arantes do Nascimento. Aos 42 anos, ela morreu de câncer na mama. 

Pelé não a visitou no hospital nem foi ao velório. Podia ter ido, a cerimônia foi simples. Nem precisaria usar um,  das dezenas que talvez possua, dos pares de sapatos de couro alemão preto que, acho eu, aprendeu a gostar por influência do jogador alemão Beckenbauer, seu companheiro de clube no Cosmos.

Bastaria vestir seu caráter com a simplicidade do sentimento de um pai. Diante do exemplo de Pelé, recorro à velha máxima: “Ninguém vive o que prega”.

Créditos: Revista “O Cruzeiro” – edição julho 1975

lki

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sai a data , entra a dúvida : sacanagem das revistas periódicas (?)

No Brasil,  as revistas periódicas de consumo são de uma cultura editorial excelente. Há muito tempo, no entanto, algumas adotam uma postura indelicada com o leitor:   omitem a data da circulação na capa ou no expediente. Veja só, leitor, a resposta à minha abordagem crítica. Ou reclamação, caso queiram, que enviei a uma delas:

“Esclarecendo o problema: entendemos que explicitar o ano e o mês de publicação no expediente é melhor para nossos leitores, que encontram material de referência certo e que podem, assim, se situar entre seus números.

Porém, não incluir esta informação é uma decisão do editor (...) e a redação não tem poder de decisão neste fator. Os responsáveis nos garantiram que em breve seria adicionada a informação de mês e ano, mas não nos deram uma data precisa para isso. Ainda assim, peço desculpas em nome da equipe e da editora (...). Sua reclamação será encaminhada diretamente para o responsável”.

Bem se vê a procedência daquilo que reivindiquei. Entretanto, pelo conteúdo da resposta, vê-se que uma área da editora, a Redação, foca o cliente; a outra, a Editoria, não foca. Mais de um ano depois, apesar dos esforços da Redação, o problema não foi sanado. Difícil, não é? Fácil seria abolir esse tipo de falcatrua. No meio editorial a intenção desse recurso visa  mascarar o número de edições vendidas.

A ausência da data da circulação também compromete a fixação da imagem e do conceito dessas publicações e dos patrocinadores. Estes, às vezes, nem se dão conta dessa manobra.  Alguns deles, não há dúvidas, pactuam com esse desrespeito. Entendem que os seus produtos adquirem a condição de atuais. Mas se enganam. 

Estou escrevendo para diversos patrocinadores. A intenção é despertar os que são éticos na divulgação daquilo que comercializam como produto final e os alertar sobre o risco que correm na avaliação de um leitor mais atento.

Uma revista é um importante suporte de textos. Aquelas a respeito das quais faço abordagens críticas existem em todas as áreas: Variedades, Direito, Língua Portuguesa etc. Em algumas delas – as da área de Direito, por exemplo  –  as matérias ficam inócuas sem a data. Os seus textos levantam dúvidas quanto à  aplicabilidade no que concerne à sua vigência ou não.

Mesmo o leitor leigo em Direito, mas com relativo potencial para entender um texto pautado por um padrão técnico de expressão, ressente-se da falta desse componente imprescindível, a data da circulação. Ela é uma convenção universal. Proceder de forma diferente gera a quebra de  confiança entre leitor e revista. O que os Editores fazem é um desrespeito tão grave quanto o desrespeito costuma ser.

Não consigo entender como um articulista renomado publica artigos em um veículo que coloca em prática essa linha de ação. Recentemente, uma musa impressa que adotava a postura de omitir a data da circulação, fechou o título (encerrou suas atividades). E para ela mando a seguinte mensagem: “Fechou, com o meu aplauso”.

Em todas as fases da minha adolescência, lá pelos anos 60, até algumas edições do Catecismo, revistinha de sacanagem criada por Carlos Zéfiro, trazia a data. Escondidinha, mas trazia.  Com isso, esse gênero, apesar de ser uma publicação clandestina, respeitava os leitores. Que, por sinal, não eram poucos. 

No caso dos Catecismos nem precisaria constar a data da publicação, eles retratavam um assunto atualíssimo desde Adão e Eva, sem risco de perder a vigência. Mas por respeito aos leitores, alguns continham essa informação.

Códigos das imagens: Google


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...