terça-feira, 29 de agosto de 2017

Agradecimento

Agradeço aos leitores deste Blog que, em 28/08/2017, felicitaram-me pelo meu aniversário através do e-mail desta página:  mosaicocultural.aguiar@gmail.com .


Um cordial abraço a todos.


Augusto Aguiar

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Praça Valêncio de Barros: a história por trás da ficção


“A História é o alicerce sobre o qual construo meus romances”
(Alexandre Dumas – autor de "Os Três Mosqueteiros)
NÃO
Nos primeiros anos do século vinte, em Bebedouro, estado de São Paulo, a área do antigo Cemitério Municipal cede lugar a um espaço público contendo uma paisagem valorizada e de práticas sociais, o Jardim Misterioso. Este, a partir de 1912, passa a se chamar Praça Valêncio de Barros, em homenagem ao primeiro Prefeito Municipal da cidade (1908-1910), mas sem a estátua dele. O que, por sinal, deixa a impressão de um projeto não acabado.

Atualmente, não se encontra – se é que existiu - a Lei ou o Decreto Municipal da criação dessa praça. Nem na Prefeitura nem nos Arquivos Municipais nem na Câmara Municipal.  A não localização de Leis ou Decretos dessa natureza repassa à educação patrimonial local, instrumento de alfabetização cultural, um sério prejuízo. O cidadão fica sem referência quanto à questão histórico-temporal da cidade no que diz respeito às mudanças urbanísticas – e de suas nomenclaturas - ocorridas no espaço onde vive.

Veja só, leitor: a título de exemplo, em 1899, na cidade de São Paulo, capital do nosso estado, a Lei nº 416, de 28 de agosto, passa a denominar Rua Dr. Rodrigo Silva a primitiva Rua da Assembleia. Como se vê, muito antes de 1912, os logradouros eram criados através de leis.

No momento atual, um decreto ou lei municipal regularizando a questão daquele logradouro, bem como de outros em situação idêntica - seria extremamente salutar para se dar um rosto documental à História da nossa cidade.

Anos depois, em 1953, no Dia dos Professores, inaugura-se o Monumento ao Padre Anchieta (estátua daqui para frente), no centro da Praça Valêncio de Barros,  uma iniciativa do povo e dos professores daquela época. Anchieta é o patrono do ensino no Brasil, foi nosso primeiro mestre. Mas os protagonistas desse ato cometeram uma distração incrível. Se o homem é o patrono do  ensino, qual a razão da estátua estar de costas para uma agência de letramento, a escola Abílio Manoel?

Quando da inauguração da Praça Valêncio de Barros, o que impediu, na ocasião, de não se estatuar o homenageado? Não sei. Mas em qualquer tempo, ele é o único que deveria estar lá. É o mínimo aceitável para a qualidade estética e histórica do local. Dessa forma, teríamos uma Valêncio de Barros mais rica de significado.

Nota-se, portanto, que aqueles que estiveram à frente das iniciativas da criação dessa praça (1912) ,antigo Jardim Misterioso, deixaram uma brecha para um futuro erro: a instalação da estátua de Anchieta. Essa homenagem colocou o oco no lugar do vazio. 

Além dos idealizadores da criação da praça e do povo da época da instalação da estátua, devoto uma imensa admiração e respeito pelos professores, sejam eles de qualquer momento histórico, mas a homenagem ao patrono do ensino na Valêncio de Barros mostra a falta da mínima noção de o que fazer (e o que não fazer) num caso desses. Nessa praça, Anchieta está fora de lugar. E, como já disse, numa posição errada.

De mais a mais, a aura de mistério que envolve o local é algo a não ser menosprezado. Enfim, desde a época que se chamava Jardim Misterioso, a praça está sobre restos de cadáveres anteriormente remanejados para o atual Cemitério Municipal. 

Algumas pessoas, dotadas de faculdades especiais, possuem a capacidade de mediarem o contato entre o mundo material e o espiritual. Num tom confessional, a propósito da estátua de  Anchieta, comentam que, altas horas da noite, costuma resmungar a respeito das suas insatisfações. A sua presença ali – segundo  diz - mais do que caracteriza um vínculo empregatício com a Prefeitura Municipal, um pepino que – em 1953 – o povo e os professores empurraram para a municipalidade.

Desde aquela época, reclama Anchieta,  está escrevendo sem parar. Por sinal, numa posição incômoda, inclinado sobre a plataforma que representa a areia da praia. Decorrido um tempo significativo, sente os efeitos desse esforço repetitivo. 

Além disso, entre esse e muitos outros direitos trabalhistas a que faz jus, não usufrui de um descanso razoável que, a exemplo do final de uma jornada de trabalho e o começo da outra, deveria acontecer. 

Uma reclamação na Justiça do Trabalho, tendo como reclamante Anchieta,  configuraria um elevado passivo a ser pago pela Prefeitura Municipal, mesmo que a retroatividade, de acordo com a lei em vigor, se dê apenas aos últimos cinco anos.

Num outro contexto – acrescentam os clariaudientes (homens ou mulheres que ouvem vozes dos espíritos) -  ele pretende, também, fazer uma moção de desagravo aos católicos, apostólicos e romanos da cidade.

Canonizado em três de abril de dois mil e quatorze, reclama da ausência de católicos por ali.Frequentadores da praça  testemunham o fato e acrescentam que nenhum católico faz o sinal da cruz ou a genuflexão (ato de se ajoelhar) diante da imagem do agora São José de Anchieta.

Segundo o Santo, dizem os clariaudientes, essa postura denota indícios de um catolicismo que vem se submetendo à perda de fiéis. Essa religião  está sem aquela elasticidade quase unânime de outrora. Antigamente, os católicos, ao passarem diante da igreja ou da imagem de um Santo, faziam solenemente o sinal da cruz. Alguns acrescentavam a genuflexão.

Hoje, por exemplo, muitos olham para um lado; depois, para outro. Se não há ninguém olhando, eles fazem, às pressas, o sinal da cruz. Parecem inibidos com o crescimento das outras correntes religiosas cujos membros podem estar nas imediações. Ventos transformadores sopram desde o século passado. Algumas coisas, antes inimagináveis, fazem parte da rotina do momento atual em termos de religião.

Aquelas pessoas dotadas de faculdades especiais acrescentam que Valêncio de Barros costuma ter uns arranca-rabos com São José de Anchieta. Na concepção de Valêncio, não apenas na minha,  ele é quem deveria ter a estátua no centro da praça que leva o seu nome. 
- Saia daí, esse lugar é meu. – diz pra Anchieta.
- Cadê a lei? Cadê a lei? – retruca Anchieta a respeito da Lei ou Decreto Municipal da criação da Praça (1912), que ninguém acha.

Dizem também que -  após a canonização de Anchieta - Valêncio de Barros civilizou o vocabulário, mas o bate-boca continua.
São José de Anchieta sempre responde:
- Respeite-me! Hoje, sou uma estátua sagrada.  
  E acrescenta:
- No Brasil só há três Santos canonizados: Eu, Madre Paulina  e São Frei Galvão. E só este último tem poderes para      resolver as nossas  diferenças em relação à esta praça. E ao  meu passivo trabalhista também.
Tá rindo, leitor? Por quê?

Crédito da imagem: Augusto Aguiar e Gazeta de Bebedouro







domingo, 13 de agosto de 2017

Mara Senna, sua trajetória literária, abordagens à poeta também mineira, Adélia Prado e homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade,



Aos que compareceram ao evento acima: "Mara Senna, sua trajetória literária, abordagens à poeta também mineira, Adélia Prado e homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade,  depararam-se com um magnífico espetáculo conduzido por sua protagonista, Mara Senna,  poeta araxaense (Araxá M.G.) residente em Ribeirão Preto S.P.


https://www.facebook.com/mara.senna.3/videos/vb.100000285363863/1680128922006604/?type=2&theater
Aos que não tiveram a oportunidade de comparecer , basta clicarem no link acima e verão uma belíssima amostra desse acontecimento. 

Homenageados

Adélia Prado
Em parte de sua poesia, entre outras características, Adélia Prado mantém uma relação muito estreita com o divino. Fica até engraçado, mas seu marido chama-se José Assunção de Freitas. Mas, na realidade, a poesia dela é feita com no chão. Não é, como muitos supõem, um experimento metafísico.

O poeta Affonso Romano de Sant'Anna fez a submissão dos poemas de Adélia a Carlos Drummond de Andrade, Este definiu-a como um fenômeno poético e a referendou ao editor Pedro Paulo Sena Madureira que, na época, trabalhava  na editora Imago, Trataram de publicar, de imediato, o primeiro livro de Adélia, Bagagem (1976). 

Carlos Drummond de Andrade
A respeito dele, basta falar que, até hoje, a maioria da poesia que vigora pertence à família espiritual de Drummond. 

Mara Senna 
Inicia o seu trajeto literário em 2009 com o livro de poemas Luas Novas e Antigas. Em 2012, revisita o mercado editorial com Ensaios da Tarde, seu segundo livro do gênero. Eternidades na Palma da Mão, lançado em 2015, é seu mais recente livro publicado. A sua poesia não tem infância nem adolescência; nasce adulta, emancipada. De início, cai no gosto do leitor.

Em 23/06/12, na editoria de Literatura deste Blog, publicamos uma resenha sobre Ensaios da Tarde. Em 11/09/14, Mara Senna concedeu uma entrevista a este Blog. O leitor poderá ter contato com as matérias citadas acessando, pela ordem, as editorias (marcadores) de Literatura e a de Entrevistas com escritores, respectivamente.

Crédito da imagem e do link: Página do Facebook de Mara Senna.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Morre Luiz Melodia (1951 - 2017)

Na juventude, Luiz Melodia tinha um quê do João-do-Pulo. Pouco depois, seus lábios ficaram meio que "simonalizados", ou melhor, parecidos com os do Wilson Simonal, outra fera.
A música Feitio de Oração entregou-se a uma voz grave e aveludada, a de João Nogueira. No entanto, morria de amores pelos timbres preciosos de Luis Melodia. Hoje, ambos cantam numa outra frequência.
Você já viu uma rouquidão afinada? Ele tinha. Com ela, cantou samba, soul e até blues.Sua extensão de voz tratava as notas musicais com a delicadeza que o câncer não teve com ele.


Crédito: Google


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domingo, 30 de julho de 2017

Desejos na gravidez



Todos os anos, pouco antes do mês de agosto, a jabuticabeira do quintal daquela casa exibia uma belíssima e perfumada florada.  Sinalizava a frutificação.  Em breve, amadurecidas, as frutas se deixariam querer. Mas já terminava setembro. Com ele, a safra dessa doçura de fruta, a jabuticaba. Por isso, a árvore estava quase toda depenada. A sete metros acima do chão, o topo da copa ainda ostentava algumas que restaram.

Nesse cenário, Maria Eugênia berçava a primeira gravidez. Vivenciava aquela fase de vontades incontroláveis. Teve o desejo de provar um pouco das jabuticabas que estavam lá em cima. Mas com uma exigência: colhidas pelo próprio marido. 

O cara, coitado, enfrentava uma labirintite leve. No entanto, incômoda. Fez o sinal da cruz por uma, duas, três, quatro vezes. Só não fez mais porque a mulher gritou:
- E aí, não vai subir? Só a criança é quem demora nove meses pra nascer.

Disposto a não colaborar com a provocação, Marcos, esse era o nome dele, começou a escalada. Pensava: "Se eu cair e morrer, a criança não conhecerá o pai. Caso eu não morra, conhecerá um pai deformado; porém, caso não satisfaça o desejo de minha mulher, posso causar alguma sequela ao bebê". A certa altura, enfiado na copa da árvore, outra preocupação bateu forte: "Só faltava encontrar uma caixa de marimbondos pelo caminho". Felizmente, conseguiu colher as frutas e descer ileso.

Retirou-as de um saquinho, depositou-as no côncavo das mãos de sua mulher. De tanto que brilhavam, as jabuticabas pareciam pérolas negras polidas. Estas, por incrível que pareça, existem. Ao passar os olhos pelas jabuticabas e possuída pelos desejo inusitado que a acometia, disse:
- Estas não, Marcos. Eu quero as que estejam bicadas pelos passarinhos.   

Há uma crença fundada na superstição a respeito dos desejos das grávidas.  As vontades não realizadas trariam consequências à criança que vai nascer. E o casal compartilhava dela. Temos aí uma deformação cultural que ainda vigora.

Três anos depois, Marcos e Maria Eugênia curtiam felizes a espera do segundo filho. Desta vez, a coisa foi diferente.  O desejo dela não ficou atrelado a algo de comer. Tampouco àquilo que não fosse, mas a grávida deseja experimentar. Um pedaço de telha, por exemplo.

O desejo de Maria Eugênia, filha única do casal Quinzinho e Marieta, foi além de tudo isso.  Não tivera um irmão, queria um.
- O que é isso?  - dizia Marcos - seus pais já morreram, querida.
- Eu quero um irmão, eu quero um irmão. - passou a ser o discurso dela. 

Esperto, o marido colocou-a em contato com as religiões nas quais os fiéis se tratam por irmãos.
- Esses são irmãos de fé, assim não quero. - rebatia.

- Puxa vida! – ele exclamava.
E pensava: “Em sua floração (gestação), frutificação (parto), a jabuticabeira na qual colheu as jabuticabas não deu nenhum trabalho. E, no mínimo,  produziu mil quilos de jabuticaba naquela safra.”.

O desejo de sua mulher estressava-o. Após o trabalho, passou a chegar mais tarde em casa.  Esticava o trajeto de volta, ficava no bate-papo com os amigos.  Em uma dessas vezes, encontrou o Neneco, um colega de juventude. Famoso boateiro da cidade, ele sabia de uma história importante, Ficou matutando em que tom sussurraria o fato nos ouvidos de Marcos. Sempre tivera uma queda por Maria Eugênia, queria livrá-la daquela situação que já era do conhecimento da cidade inteira.

Tomou coragem e entrou no assunto:
- Marcos, você é advogado. O que vou contar não é calúnia nem difamação. Quero seu compromisso de que o assunto ficará sob sigilo.
- Algo grave? - o outro perguntou.
- Algo nevrálgico, mas é necessário vir à tona. - respondeu.
- De minha parte, sem problemas. - disse o outro.
- Com relação à aparente impossibilidade da realização do desejo de sua esposa
nesta gravidez, vou tentar ajudá-los. 
- Aparente? - perguntou o marido de Maria Eugênia.
Neneco mandou ver:
- Houve uma saia - dona Samira - entre seu Quinzinho e dona Martinha, seus sogros. Dessa relação extraconjugal nasceu o futuro médico, Dr. Alberto Rebouças, o Bertinho.  

Marcos enfiou o rosto entre as mãos. Espantado, disse:
- Não acredito.
O outro pormenorizou com detalhes praticamente inquestionáveis. Apesar de boateiro, Neneco foi levado em conta. O boato tinha contornos de verdade.

Àquela altura, todos os envolvidos, com exceção de Bertinho, eram um bando de falecidos. Bertinho foi colocado a par do assunto, concordou com o teste de paternidade e maternidade. Os corpos foram exumados e o teste, consumado. Deu positivo. Repetiram o exame, deu positivo novamente.

Com a fisionomia eufórica, Marcos, munido de toda documentação e acompanhado de Bertinho, foi ao encontro da esposa. Com sutileza, contaram a novidade. 

Ela leu os documentos. Em seguida, imergiu em pensamentos. Depois, com calma profunda, disse:

- Ele não é irmão, é meio-irmão. Fração é assunto da Matemática. 

Texto registrada na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7. 

Imagens: Google.

terça-feira, 25 de julho de 2017

De mini - saia para minissaia


Antes do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, vigente a partir de janeiro de 2009, a grafia dessa peça do vestuário feminino era mini-saia. Escrita assim, combinava com a figura do objeto que designava:  traje bem curto, cerca de 20 a 30 centímetros acima dos joelhos.  Algumas, por sinal, menores do que a medida padrão. A ponto de, numa viagem, uma moça, ao procurar uma calcinha tipo shortinho na frasqueira, tirar a mini-saia que levou para o passeio. Engano proveniente da semelhança de tamanho entre as duas peças de roupa.

Nos tempos atuais,  as medidas oficiais desse tipo de roupa continuam as mesmas. No entanto, por imposição do trágico Acordo Ortográfico, apenas o jeito de escrever mudou. Hoje, somos obrigados a escrever minissaia. Sem o hífen fica a impressão de algo mais comprido em relação àquilo que define. 

A mudança da forma de grafar esse vocábulo é pura safadeza daqueles que instituíram o Novo Acordo Ortográfico. O interesse foi único e exclusivo a venda livros, nada mais. Essa jogada oficial das editoras de livros didáticos em parceria com os legisladores não é nova.  A alteração processada no Acordo Ortográfico maltratou a minissaia. 

Na época de seu lançamento, as garotas incorporaram esse traje à rotina do dia a dia. Não de forma pacífica, claro. Os pais, os irmãos, os avós, as titias, entre outros membros da família, protestavam. Os irmãos, por exemplo, que só gostavam de minissaia no corpo das outras meninas, chegavam a dar uns puxões de orelha em suas irmãs. 

Num encontro da terceira idade, uma vovó, que proibia a neta  de usar minissaia e insistia para ela ser freira - confessou à outra idosa: 
Possuo aquele encanto que muitas mulheres maduras conservam. Apesar de usar aquelas calcinhas tradicionais, preferidas pelas senhoras maduras, que, por sinal, abrangem o quadril e cintura, dou minhas desbundadas em frente ao espelho. Algumas vezes, enfio uma minissaia pra ver como é que fico. Em todas essas ocasiões, imagino mil diabruras, mando ver. O espelho é o maior voyeur que conheço.

A colega da vovó pergunta:
- O que é voyeur?
- É a pessoa que possui o distúrbio de sentir prazer ao observar às escondidas cenas eróticas ou partes íntimas de alguém. Em minhas fantasias, equiparo o espelho a um voyeur. 


Com essa postura, ela libertava seus sonhos aprisionados, suas fantasias perturbadoras,  cujos nós o falecido não teve a sensibilidade de desatar. 

Em seguida, a outra, espantada, perguntou:
- Verdade?

- Sim, - Respondeu a vovó.
E continuou:
- Descobri que meu falecido marido era o maior frequentador dos prostíbulos das cidades vizinhas. Realizou suas descobertas profundas com as meretrizes, nunca comigo. E o safado era Diácono da igreja, ministrava palestras nos cursos de noivos e encontros de casais. Inúmeros casais emocionavam-se ao escutarem as mensagens do Nonô, aquele pilantra. Em muitas famílias, colega, a santidade é apenas aparente.


E finalizou:
- Estou pensando seriamente em arrumar um namorado que seja decente na    sociedade e endiabrado na cama. Quero terminar a obra que nem sequer o Nonô cavou o alicerce.
A colega da vovó ficou ruborizada e saiu de fininho.

Quanto às titias – mesmo as casadas - cheias de pudores no convívio social, juntavam-se às vozes discordantes quanto ao uso da minissaia pelas sobrinhas.  No entanto, no quarto trancado a sete chaves, vestiam minissaia. E iam além. Em frente ao espelho, muitas delas, só de calcinha e sutiã, rebolavam voluptuosamente os quadris, ao som de algum samba-enredo imaginário, enquanto fantasiavam a possibilidade de, naquele momento, estarem na condição de madrinhas da bateria de escolas de samba famosas. Mentalizavam a Globo entrevistando-as. Enfim, aquele blá blá blá dos desfiles das Escolas de Samba na Sapucaí, no Rio de Janeiro e no Anhembi, em São Paulo.  Um luxo: purpurina, purpurina, purpurina. Muitas titias escondiam inúmeros desejos secretos.

Outros perfis de titias, por exemplo, ficavam nuas, faziam contorcionismos  na cama. Imaginavam-se   posando para as mais famosas revistas masculinas, Nesse caso, o cachê seria o prazer de posar, nada mais. Todos nós vivemos esses recortes imaginários que se contrapõem à realidade. Mas, no dia a dia, as tias, por acharem a minissaia extremamente ousada, puniam com severas correções as sobrinhas adeptas do novo estilo de se vestir. Enfim, as jovens enfrentavam um tribunal da Inquisição. Essas posturas intervencionistas maltrataram mais uma vez a minissaia.

Em 1967, em uma cidade do interior, aconteceu um fato incomum envolvendo o uso da minissaia. Num domingo à noite, o local onde acontecia o footing – aquele passeio a pé que as moças faziam num determinado trajeto cercado por rapazes -  geralmente no centro da cidade - estava entupido de gente. De repente, uma moça da capital surgiu vestida com uma minissaia com trinta centímetros (ou mais) acima dos joelhos. Estava acompanhada por uma amiga.

Começou uma correria que, a princípio, ninguém entendia nada. A impressão era de que alguém estava apontando uma arma e as pessoas fugindo. Aos poucos, as dúvidas foram desaparecendo. A multidão, que a cada instante aumentava, cercou a garota. Os rapazes, além dos palavrões, emitiam aquele costumeiro assovio ardido, o fiu-fiu.

Muitas moças, talvez por serem castradas pela família quanto ao uso daquela peça de roupa, vaiavam. Pode ser que, naquele gesto, assumiam inconscientemente as posturas dos pais, irmãos. avós e tias. Não que concordassem, mas, talvez, faziam isso para que – em suas vaidades  feridas por uma sociedade repressora,    aquela moça ficasse igualada a elas.

De repente, abrindo caminho entre a multidão, surge um táxi. A colega, empurrando a moça pra dentro do carro, gritou:
- Leva.
E permaneceu no local para tentar devolver as entradas do cinema. Outra vez , devido à aparente rejeição de moços e moças, maltrataram  a minissaia.

O táxi que a garota embarcou prestava serviços às prostitutas do meretrício local. Acostumado àquelas rejeições para com as mulheres de lá, o taxista supôs que se tratava de mais uma. Involuntariamente, ele levou a moça à Zona do Meretrício. Sem nenhuma intenção, maltratou a dignidade dela.

Imagens: Google

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Relacionamentos virtuais. E daí?


Eduardo e Marina iniciaram uma relação de amizade através de uma Rede Social na Internet.
Onde mora? – ele pergunta.
- Vacaria, Rio Grande do Sul.
- Estive numa cidade pertinho daí, Monte Alegre dos Campos. Por sinal, muito pequena.
- Sim, é sim. Conheceu Vacaria?
- Não, não fui até aí.
- Ah, que pena. Você iria gostar.
- Se me convidar, irei.
- Ela ri: “Rs, rs, rs...”
-  Sua região é fria, temperatura muito baixa.
- De fato, aqui faz muito frio. - Ela confirma.
- Está frio aí hoje?
- Demais. Estou com muito frio.
-  Onde? – ele pergunta.
-  Bobo.

- Qual é sua cidade? – ela quer saber.
- Moro em Porto Alegre. Estamos separados por 239 km, três horas e vinte minutos de viagem.
- Profissão?
- Advogado, mas não participo mais das audiências.  Conquistei minha independência financeira. Hoje, presto assessoria à distância para   algumas multinacionais. Faturo bem sem sair de casa.
- Casado?
- Viúvo.
- Há quanto tempo?
- Cinco anos.
- Filhos?
- Um homem e uma mulher. Ambos cursam Medicina.

- Como você é? – pergunta.
- Divertido, sensível, romântico, educado, paciente, confiante. Tenho estilos diversificados. Brotam de acordo com a ocasião. Ah,  sou mal comportado da cama pra dentro. Além disso, encarno aquele tipo que gosta de namorar no banco da praça, comer pipoca, ritualizar esses tipos de momentos.

- Hummmm. E fisicamente?
- Um tipo comum,  45 anos, cabelos pretos, grisalhos nas têmporas laterais, olhos azuis, 1,86 altura.
- Nossa! Físico esculpido?
- Longe disso. Tenho um físico normal. Prefiro ser confortável.
- Você é espirituoso, hem. – diz ela. E sinaliza que está rindo.

- Qual seu estilo de vestir-se?
- Jeans, camiseta, tênis baixo. Quando necessário, agrego um blazer. Opto pelo casual.
- Uau – ela digita.
- Eduardo, diga-me o estilo de roupa que você gosta de ver uma mulher vestida?
 - Espartilho acompanhado por uma calcinha de curta permanência.
- Louco!!! – ela exclama.

- E você, como é, o que faz, estado civil? – ele quer saber.
- 37 anos, minhas características físicas – dizem os amigos – lembram a atriz Giovana Antonelli (vejo aí um ato de bondade, de estímulo).
E continua:
- Solteira, administro duas fazendas que meus pais me deixaram.
                                      

Por fim, diz:
- Fui freira durante onze anos, mas desisti. A certa altura, descobri que não era meu caminho.



Surpreso, ele provoca:
- Não imaginava que você fugiu do convento.
Ela sinaliza novamente que ri. Esclarece:
- Sua alma é leve, Eduardo. Gosto disso. Não fugi do convento. A solidão,  o sistema hierárquico rígido e a perda de minha individualidade roíam minha liberdade. Além disso, não concordava com alguns conceitos ideológicos, entre outras coisas.  A vida religiosa – jamais a religião católica - não foi uma fase muito esperta do meu jeito de ser. Desliguei-me formalmente de minha condição de freira.
Através da Internet, as redes sociais têm o poder de rearranjar a solidão, a carência, os nós existenciais e os pesos psicanalíticos de milhões de pessoas. Um número incalculável delas casaram-se após contraírem relacionamento por esse meio digital. 

Para algumas pessoas mais céticas, Santo Antônio de Pádua, o santo casamenteiro, cumpriu seu ciclo. Está com baixa audiência. A Internet não pode ser canonizada, mas assumiu o papel de Santo Antônio.  Para outras, dotadas de uma religiosidade fervorosa, o meio digital é apenas um novo caminho através do qual  o santo transita e produz milagres com a costumeira intensidade de antes.

Eduardo e Marina casaram-se. No altar, disse pra ela: "Você não é mais uma ideia, é minha realidade".  Apoiados em suas experiências de vida, formaram um casal muito feliz. Algum tempo depois, nasceu Mariana.

Certa ocasião, aos sete anos de idade, Mariana viajou, num feriado prolongado, com seus irmãos consanguíneos, o casal de filhos do primeiro casamento de Eduardo.

À noite, sozinhos, Marina abre a janela para arejar um pouco o quarto, vai ao aposento contíguo, o close, trocar-se para dormir.
- Está muito frio. Posso fechar a janela, Marina? – Ele, já deitado, pergunta.
Pode, Eduardo. Esquenta meu cantinho que já vou.

De repente, surge vestida com uma camisola preta comprida. Diante dele, está uma Deusa-Mulher, plena de substâncias delirantes. Ela solta as alças da camisola, esta cai até os tornozelos. Vestia um espartilho preto acompanhado de uma calcinha transparente também preta e com ares de curta permanência.

Ele a olha com um afeto cheio de apetites enquanto seus sentidos gritam.
Marina diz:
- Estou com muito frio, mas aqui. – E mostra o local após passear com o dedo indicador pelo ventre, essa via sensual, pelo monte de Vênus, púbis, até chegar ao ponto final...

Que frio, que nada. O local que ela indicava estava com a temperatura de uma estrela. Naquele instante, os líquidos de todas suas transpirações ferviam. Em seguida, escaldaram Eduardo...

O sexo entre eles acontecia na dose ideal. Mas, naquele dia, a manhã teve um quê diferente, que a tarde tomou emprestado e a noite, soma das duas, tomou posse.

Imagens: Google

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A trinca de Gerusa


Aos sessenta anos, Gerusa aparentava menos idade. Viúva, morava sozinha. Era uma mulher muito rica.  Num feriado pela manhã, sentou-se à mesa de sua biblioteca para rever os álbuns da família. 

Sem filhos, fora casada por três vezes. No primeiro casamento, com Zé Inácio que, em certo momento, enveredou para o jogo de baralho; no segundo, com Zé Carlos, escultor; no terceiro, com Zé Rubens, médico legista.

Depois de um longo tempo olhando o álbum com fotos de sua infância, mocidade e da fase adulta ainda solteira, começa a folhear o da época de namoro e dos anos de casamento com Zé Inácio.

Foi um namorado maravilhoso. No dia do casamento, antes da cerimônia religiosa, mandou um telegrama para ela com estes dizeres: “Um casamento de almas gêmeas não precisa passar pelo altar, nem pelo Registro Civil. Deus já sacramentou sem formalidades. Mesmo assim, te espero no altar”.

Certa vez, já casados, numa manhã fria em Campos de Jordão, ele escreveu com batom no espelho do banheiro do hotel: “A chuva fininha lá fora e a gente se afinando aqui dentro, desfiando ternuras”. Quando leu, Gerusa, emocionada, correu para os braços dele. Esse jeito do marido coloria a rotina do casal.

No oitavo ano do casamento, sem que se saiba a razão, ele começou a exercitar com intensidade o vício pelo jogo de baralho. Apenas isso parecia fazer parte de sua vida.

Sem alimentar-se corretamente, sem banho, barba por fazer, entre outras infrações com a higiene pessoal, jogava por dias seguidos Quando voltava para casa, não aparentava nada daquele Zé Inácio de antigamente: elegante, bem vestido, sempre preocupado com o visual.

Gerusa não acreditava no que via. Não suportava o cheiro de cigarro, de bebida, do suor misturado com o perfume vencido. Louca da vida, dizia: “Você está com cheiro de fusível queimado”. Em seguida, enfiava-o debaixo do chuveiro.

Era comum, durante os banhos, ele conversar sozinho, descrever táticas de jogo, simular conversas com algum parceiro e outras babaquices. Fazia isso com tal intensidade que transmitia a sensação de dividir o banho com um dos parceiros de jogo. Gerusa percebeu o equívoco de casar-se com ele. Durante um banho, ele caiu morto.

Há tempos, ela mandara construir uma sepultura magnífica, ainda não utilizada. Um mausoléu. Nele, Gerusa sepultou seu primeiro Zé.
No período da tarde, após descansar um pouco, retoma o contato com os álbuns. Folheia o da época em que foi casada com Zé Carlos, o escultor.

Bonito, físico avantajado, elegante, educado, dono de uma fineza incomum ao tratar com as pessoas, nunca foi um namorador serial, mas as namoradas que teve sempre foram mulheres belíssimas. Muito culto, não era pretensioso ao divulgar seus conhecimentos.

Relativamente bonita, Gerusa exalava um magnetismo que contagiava a todos. Seu corpo pautava-se pelas formas medianas, nem magra, nem mais recheada. Seu jeito de andar era provido de  um rebolado  tentador, nada econômico. Caso se expressasse pela fala, seria um rebolado tagarela. Nele, a cada passo, as nádegas faziam aquele treme-treme tal qual a gelatina  quando é tocada. Quem sofresse de labirintite e acompanhasse aquele mexe pra lá, mexe pra cá, cairia.  Zé Carlos não resistiu à exterioridade e à interioridade dela, pediu-a em casamento. Casaram-se. A cerimônia do casamento foi simples.

Ela estava sempre presente no ateliê do marido. Por lá, transitavam as modelos que pousavam para a produção escultórica dele. Levando em conta a preferência de Zé Carlos por figuras humanas em suas esculturas, quis tirar uma dúvida. Perguntou-lhe:
- Sempre as modelos tipo graveto (magras), por quê?

Ele explicou-lhe que a antiga inclinação por mulheres mais gordas simbolizava a maternidade, a submissão do sexo feminino. Dos anos sessentas em diante, devido à emancipação feminina, optou-se pela secura das formas, símbolo da independência feminina. Mas entendia que todos os tipos de formas tinham seus atrativos.

E acrescentou:
- Esculpirei o corpo mais lindo que já vi na vida, o seu. E junto, o meu. Nós dois numa das posições do Kama Sutra, aquele livro que ensina malabarismos nas posições sexuais. Farei um escultura com imensa carga erótica. Ninguém precisará saber, será um segredo nosso.  Nem há necessidade de você posar, conheço o teu corpo poro a poro, pelo a pelo.

Algum tempo depois, terminou o trabalho. Em bronze, com uma perfeição inigualável, sobre um bloco dessa liga metálica, lá estavam as formas de Gerusa. Suspirou cheio de amor e disse para si mesmo: “Humanizei-a”. Agora, só faltava a escultura com a imagem dele para completar a cena.

Eufórico demais, fez -  involuntariamente - um movimento brusco. A estátua desabou, bateu com a parte inferior do púbis no rosto do escultor. O impacto provocou múltiplas fraturas no rosto. Além disso, ao bater com a cabeça contra o chão, ele sofreu um traumatismo craniano.  Ali mesmo, morreu. 

A cena perturbadoramente erótica, mas triste, mostrava o órgão abaixo da região pubiana da estátua sobre o rosto de Zé Carlos. Caracterizava a reprodução perfeita de uma coreografia do Kama Sutra.
No mausoléu, Gerusa sepultou seu segundo Zé.

À noite, após um lanche, ela revê o último álbum, aquele de seu casamento com Zé Rubens, o legista.

No trâmite burocrático da documentação relativa ao falecimento de Zé Carlos, Gerusa teve diversos contatos com o médico legista, Dr. Zé Rubens, encarregado da autópsia do corpo do falecido marido. Nasceu uma grande amizade que se estendeu por anos.

Nesse período, Zé Rubens também ficou viúvo. Tempos depois, casou-se com Gerusa. Viviam bem, mas ela sempre corrigia a desagradável mania dele contar a respeito de suas autópsias, exumações etc. Isso acontecia o tempo todo, mas nunca acontecera no tempo de namoro.

Na hora das refeições, por exemplo, ele fazia minuciosamente esses tipos de comentários. Por sinal, nojentos. A ponto dela alimentar-se antes do almoço e do jantar. À mesa com ele, apenas fingia que comia alguma coisa. Compenetrado no que falava, ele nem percebia isso.

Certa vez, engatados durante o ato sexual, ele comentou que, durante movimentos idênticos, uma mulher, cujo corpo ele fez o exame cadavérico, foi morta pelo marido traído. Este a surpreendeu com o amante. E quis detalhar. Gerusa esfriou, não aguentava mais aquele tipo de comportamento. 

Apesar de tudo, era um profissional dedicado e competente. Devido a isso, foi chamado para compor a equipe de médicos legistas que examinaria, no Egito, uma múmia ainda fechada dentro do sarcófago. Presumidamente,  um Faraó.

Nesse trabalho, ele contraiu uma coceira crônica que o levava à loucura. Fez tratamentos especializados, mas não adiantou. Quando estava nas últimas, balbuciou para Gerusa:
- Anote, no rodapé do laudo que elaborei a respeito da múmia, o que penso a respeito dos sintomas que sinto.
Em seguida, antes de morrer, pronunciou suas últimas palavras:
- A coceira tem um quê de masturbação seguida daquele tipo de orgasmo com arranhões. No mausoléu, Gerusa sepultou seu terceiro Zé,

Quase meia-noite, guardou os álbuns de fotografias. Triste, encerrou aquele feriado. Não dormiu bem naquela noite. No dia seguinte, mandou fazer uma lápide luxuosa para o mausoléu dos ex-maridos.
Dias depois, a lápide foi colocada lá. Continha os seguintes dizeres:

“Aqui jaz uma trinca de Zés.”


 Imagem: Google
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