terça-feira, 15 de agosto de 2017

Praça Valêncio de Barros: a história por trás da ficção

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“A História é o alicerce sobre o qual construo meus romances”
(Alexandre Dumas – autor de "Os Três Mosqueteiros)
NÃO
Nos primeiros anos do século vinte, em Bebedouro, estado de São Paulo, a área do antigo Cemitério Municipal cede lugar a um espaço público contendo uma paisagem valorizada e de práticas sociais, o Jardim Misterioso. Este, a partir de 1912, passa a se chamar Praça Valêncio de Barros, em homenagem ao primeiro Prefeito Municipal da cidade (1908-1910), mas sem a estátua dele. O que, por sinal, deixa a impressão de um projeto não acabado.

Atualmente, não se encontra – se é que existiu - a Lei ou o Decreto Municipal da criação dessa praça. Nem na Prefeitura nem nos Arquivos Municipais nem na Câmara Municipal.  A não localização de Leis ou Decretos dessa natureza repassa à educação patrimonial local, instrumento de alfabetização cultural, um sério prejuízo. O cidadão fica sem referência quanto à questão histórico-temporal da cidade no que diz respeito às mudanças urbanísticas – e de suas nomenclaturas - ocorridas no espaço onde vive.

Veja só, leitor: a título de exemplo, em 1899, na cidade de São Paulo, capital do nosso estado, a Lei nº 416, de 28 de agosto, passa a denominar Rua Dr. Rodrigo Silva a primitiva Rua da Assembleia. Como se vê, muito antes de 1912, os logradouros eram criados através de leis.

No momento atual, um decreto ou lei municipal regularizando a questão daquele logradouro, bem como de outros em situação idêntica - seria extremamente salutar para se dar um rosto documental à História da nossa cidade.

Anos depois, em 1953, no Dia dos Professores, inaugura-se o Monumento ao Padre Anchieta (estátua daqui para frente), no centro da Praça Valêncio de Barros,  uma iniciativa do povo e dos professores daquela época. Anchieta é o patrono do ensino no Brasil, foi nosso primeiro mestre. Mas os protagonistas desse ato cometeram uma distração incrível. Se o homem é o patrono do  ensino, qual a razão da estátua estar de costas para uma agência de letramento, a escola Abílio Manoel?

Quando da inauguração da Praça Valêncio de Barros, o que impediu, na ocasião, de não se estatuar o homenageado? Não sei. Mas em qualquer tempo, ele é o único que deveria estar lá. É o mínimo aceitável para a qualidade estética e histórica do local. Dessa forma, teríamos uma Valêncio de Barros mais rica de significado.

Nota-se, portanto, que aqueles que estiveram à frente das iniciativas da criação dessa praça (1912) ,antigo Jardim Misterioso, deixaram uma brecha para um futuro erro: a instalação da estátua de Anchieta. Essa homenagem colocou o oco no lugar do vazio. 

Além dos idealizadores da criação da praça e do povo da época da instalação da estátua, devoto uma imensa admiração e respeito pelos professores, sejam eles de qualquer momento histórico, mas a homenagem ao patrono do ensino na Valêncio de Barros mostra a falta da mínima noção de o que fazer (e o que não fazer) num caso desses. Nessa praça, Anchieta está fora de lugar. E, como já disse, numa posição errada.

De mais a mais, a aura de mistério que envolve o local é algo a não ser menosprezado. Enfim, desde a época que se chamava Jardim Misterioso, a praça está sobre restos de cadáveres anteriormente remanejados para o atual Cemitério Municipal. 

Algumas pessoas, dotadas de faculdades especiais, possuem a capacidade de mediarem o contato entre o mundo material e o espiritual. Num tom confessional, a propósito da estátua de  Anchieta, comentam que, altas horas da noite, costuma resmungar a respeito das suas insatisfações. A sua presença ali – segundo  diz - mais do que caracteriza um vínculo empregatício com a Prefeitura Municipal, um pepino que – em 1953 – o povo e os professores empurraram para a municipalidade.

Desde aquela época, reclama Anchieta,  está escrevendo sem parar. Por sinal, numa posição incômoda, inclinado sobre a plataforma que representa a areia da praia. Decorrido um tempo significativo, sente os efeitos desse esforço repetitivo. 

Além disso, entre esse e muitos outros direitos trabalhistas a que faz jus, não usufrui de um descanso razoável que, a exemplo do final de uma jornada de trabalho e o começo da outra, deveria acontecer. 

Uma reclamação na Justiça do Trabalho, tendo como reclamante Anchieta,  configuraria um elevado passivo a ser pago pela Prefeitura Municipal, mesmo que a retroatividade, de acordo com a lei em vigor, se dê apenas aos últimos cinco anos.

Num outro contexto – acrescentam os clariaudientes (homens ou mulheres que ouvem vozes dos espíritos) -  ele pretende, também, fazer uma moção de desagravo aos católicos, apostólicos e romanos da cidade.

Canonizado em três de abril de dois mil e quatorze, reclama da ausência de católicos por ali.Frequentadores da praça  testemunham o fato e acrescentam que nenhum católico faz o sinal da cruz ou a genuflexão (ato de se ajoelhar) diante da imagem do agora São José de Anchieta.

Segundo o Santo, dizem os clariaudientes, essa postura denota indícios de um catolicismo que vem se submetendo à perda de fiéis. Essa religião  está sem aquela elasticidade quase unânime de outrora. Antigamente, os católicos, ao passarem diante da igreja ou da imagem de um Santo, faziam solenemente o sinal da cruz. Alguns acrescentavam a genuflexão.

Hoje, por exemplo, muitos olham para um lado; depois, para outro. Se não há ninguém olhando, eles fazem, às pressas, o sinal da cruz. Parecem inibidos com o crescimento das outras correntes religiosas cujos membros podem estar nas imediações. Ventos transformadores sopram desde o século passado. Algumas coisas, antes inimagináveis, fazem parte da rotina do momento atual em termos de religião.

Aquelas pessoas dotadas de faculdades especiais acrescentam que Valêncio de Barros costuma ter uns arranca-rabos com São José de Anchieta. Na concepção de Valêncio, não apenas na minha,  ele é quem deveria ter a estátua no centro da praça que leva o seu nome. 
- Saia daí, esse lugar é meu. – diz pra Anchieta.
- Cadê a lei? Cadê a lei? – retruca Anchieta a respeito da Lei ou Decreto Municipal da criação da Praça (1912), que ninguém acha.

Dizem também que -  após a canonização de Anchieta - Valêncio de Barros civilizou o vocabulário, mas o bate-boca continua.
São José de Anchieta sempre responde:
- Respeite-me! Hoje, sou uma estátua sagrada.  
  E acrescenta:
- No Brasil só há três Santos canonizados: Eu, Madre Paulina  e São Frei Galvão. E só este último tem poderes para      resolver as nossas  diferenças em relação à esta praça. E ao  meu passivo trabalhista também.
Tá rindo, leitor? Por quê?

Crédito da imagem: Augusto Aguiar e Gazeta de Bebedouro







domingo, 13 de agosto de 2017

Mara Senna, sua trajetória literária, abordagens à poeta também mineira, Adélia Prado e homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade,



Aos que compareceram ao evento acima: "Mara Senna, sua trajetória literária, abordagens à poeta também mineira, Adélia Prado e homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade,  depararam-se com um magnífico espetáculo conduzido por sua protagonista, Mara Senna,  poeta araxaense (Araxá M.G.) residente em Ribeirão Preto S.P.


https://www.facebook.com/mara.senna.3/videos/vb.100000285363863/1680128922006604/?type=2&theater
Aos que não tiveram a oportunidade de comparecer , basta clicarem no link acima e verão uma belíssima amostra desse acontecimento. 

Homenageados

Adélia Prado
Em parte de sua poesia, entre outras características, Adélia Prado mantém uma relação muito estreita com o divino. Fica até engraçado, mas seu marido chama-se José Assunção de Freitas. Mas, na realidade, a poesia dela é feita com no chão. Não é, como muitos supõem, um experimento metafísico.

O poeta Affonso Romano de Sant'Anna fez a submissão dos poemas de Adélia a Carlos Drummond de Andrade, Este definiu-a como um fenômeno poético e a referendou ao editor Pedro Paulo Sena Madureira que, na época, trabalhava  na editora Imago, Trataram de publicar, de imediato, o primeiro livro de Adélia, Bagagem (1976). 

Carlos Drummond de Andrade
A respeito dele, basta falar que, até hoje, a maioria da poesia que vigora pertence à família espiritual de Drummond. 

Mara Senna 
Inicia o seu trajeto literário em 2009 com o livro de poemas Luas Novas e Antigas. Em 2012, revisita o mercado editorial com Ensaios da Tarde, seu segundo livro do gênero. Eternidades na Palma da Mão, lançado em 2015, é seu mais recente livro publicado. A sua poesia não tem infância nem adolescência; nasce adulta, emancipada. De início, cai no gosto do leitor.

Em 23/06/12, na editoria de Literatura deste Blog, publicamos uma resenha sobre Ensaios da Tarde. Em 11/09/14, Mara Senna concedeu uma entrevista a este Blog. O leitor poderá ter contato com as matérias citadas acessando, pela ordem, as editorias (marcadores) de Literatura e a de Entrevistas com escritores, respectivamente.

Crédito da imagem e do link: Página do Facebook de Mara Senna.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Morre Luiz Melodia (1951 - 2017)

Na juventude, Luiz Melodia tinha um quê do João-do-Pulo. Pouco depois, seus lábios ficaram meio que "simonalizados", ou melhor, parecidos com os do Wilson Simonal, outra fera.
A música Feitio de Oração entregou-se a uma voz grave e aveludada, a de João Nogueira. No entanto, morria de amores pelos timbres preciosos de Luis Melodia. Hoje, ambos cantam numa outra frequência.
Você já viu uma rouquidão afinada? Ele tinha. Com ela, cantou samba, soul e até blues.Sua extensão de voz tratava as notas musicais com a delicadeza que o câncer não teve com ele.


Crédito: Google


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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Algozes de São João Batista


Quando passo pelos Cafés da cidade, às vezes encontro por lá dois caras que pactuam uma amizade invejável entre si . Gostam de alimentar, com fofocas e/ou boatos,  a psique dos frequentadores daqueles locais.  Especialistas no assunto, eles sabem muito bem que a fofoca e o boato são autônomos. Ou seja, cada qual tem vida própria. E que o boato se divide em verdadeiro ou falso. 

Ao narrarem-me as fofocas, o talento deles – constituído de um magnetismo envolvente - faz com que esse gênero de notícia perca o caráter transgressivo e assuma contornos de algo sério. Caso sejam boatos, vindo deles, são sempre verdadeiros.

Por isso, quando há algum assunto fervilhando pela cidade, o agente da cena (alvo da fofoca ou boato) some dos Cafés ao saber que os dois já têm conhecimento daquilo que se comenta. E como o leitor sabe, quando o assunto é fofoca ou boato o lugar comum desaparece, surge uma obsessão.

País de forte apelo religioso ao catolicismo, resultado das suas razões históricas, o Brasil renova a cada ano o ciclo das comemorações das festas juninas, todas atreladas a estes santos da Igreja Católica: Santo Antônio, São João e São Pedro.

Em uma das vésperas do dia de São João Batista, logo pela manhã, num dos Cafés da cidade, os dois amigos me chamaram para o centro da roda. Gosto de conversar porque, assim, posso aprender com as pessoas, mas, naquele momento, vi minha ida ali como um grande erro.

Fizeram-me uma pergunta maledicente em tom de fofoca:
- Qual é a sua religião?
- Católica Apostólica e Romana. Nela, sou Cursilhista. – respondi.
- Nos altares de algumas igrejas, a imagem de São João Batista está com a túnica acima de um dos joelhos; Em outras, além desse detalhe, exibe também uma parte do tórax desnudado, anunciando um corpo sarado, por quê? – perguntaram-me como se me interrogassem. E quando perguntam, o fazem com um quê detetivesco como se já soubessem a resposta.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986), pensador indiano radicado nos Estados Unidos, escreveu: “Quando outra pessoa diz algo novo, ficamos atrás de uma cortina de resistência. Não escutamos a voz de quem nos fala, mas nossas próprias vozes”. Ele é um dos grandes pensadores do século 20.

Naquele instante, enfiei-me atrás de uma cortina de resistência. Um tumulto de opiniões ocorreu entre eu e os dois amigos. O diabo não estava lá, mas mandou-os como representantes. O jeito foi eu me arrancar dali.   Hoje, recebi a conta do café que não paguei devido à minha saída precipitada do local. Junto com a minha conta, a deles. 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Professor Abílio França Valente

Professor Abílio, sua esposa, Eulália e a filha caçula, Beatriz
Nascido em Portugal, o professor Abílio França Valente veio para o Brasil com dezessete anos de idade. Por aqui, graduou-se em Matemática. Fixou-se em Bebedouro, estado de São Paulo, onde constituiu família. Juntamente com sua esposa, Eulália do Prado Valente, também professora de Matemática, lecionou como professor efetivo no Paraíso Cavalcanti, o Ginásio Estadual. Na rede particular, foi professor do Colégio Anjo da Guarda.

O início de suas aulas se dividia em dois momentos matematicamente calculados. No primeiro, chegava rápido, sempre vestido com o seu inseparável jaleco branco. De imediato, preenchia com exercícios as duas lousas da sala de aula. No segundo, com um jeito matreiro, fazia a chamada. A essa altura, os alunos já estavam resolvendo os exercícios. Como se vê, não perdia tempo.

Zoca nos dias atuais
Três dos alunos que acertavam os exercícios sujeitos à nota faziam a resolução na lousa. Entre eles, o Zoca (Joaquim Ozório Manuel de Souza Pinto, com “z” mesmo), hoje professor, que pertencia à turma que acertava todos. Seu Abílio olhava pra ele e dizia num tom meio cantado: "Ozório, Ozório, Ozório, é seu, é seu, é seu." O Zoca ia à lousa e transcrevia do caderno para o quadro negro o exercício que resolvera corretamente. 



Jornalista Quim Moreira
Com o Quim Moreira (Joaquim Moreira Filho) não era diferente: "Moreira, Moreira, Moreira, é seu, é seu, é seu." O danado do Quim Moreira era bom aluno. Mas preferiu a profissão de radialista e colunista social à Matemática. Não se pode esquecer o grande trabalho social que  faz com as crianças de Bebedouro. Caso o professor Abílio fosse vivo, aplaudiria.

E do quarto exercício em diante, o que acontecia? A coisa pegava. Se, por um lado, havia alunos que interagiam com a matéria, havia, por outro, os que eram fracos em Matemática. Diante desses, seu Abílio usava a psicologia. Olhava pra um, pra outro, e dizia: "Quem vem? Quem vem? Quem vem?" Não estava chamando ninguém pelo nome, mas era como se chamasse. De repente, alguém se levantava e caminhava de cabeça baixa até o quadro negro.

Nesse momento, caso o aluno não desenvolvesse o exercício, o professor dizia: "Preste atenção, que é simples." E o ensinava prazerosamente, era generoso ao ensinar. Pôr os pingos nos "is" das dúvidas, isso era com ele. Com esse método, motivava esse tipo de  aluno a progredir na Matemática.

Jornalista Chico Senna
Algumas vezes, apontava e colocava o indicador sobre o exercício na lousa, olhava para a classe e dizia: “Hum, o Francisco está doidinho pra fazer este". E lá ia o Chico Senna.  Contrariado, resmungando, mas ia. Questionador, não é à toa que se tornou jornalista. 


Professor Abílio
 provocando
risadas
Outras vezes, dirigia-se para a turma do fundo da classe. No meio dela, o Jamil Sahium. Por sinal, um grande colega. Encarando aquela turma, o professor Abílio dizia três vezes: "Sai um lá de trás e vem.", "Sai um lá de trás e vem.", "Sai um lá de trás e vem.". 
Fingia que chamava qualquer um, mas, na realidade, estava chamando o Turco, apelido carinhoso pelo qual o Jamil Sahium era tratado. E lá ia ele para a lousa. A classe desabava de tanto rir.

Era comum os colegas brincarem com o Jamil antes das aulas de Matemática: "Jamil, hoje você não escapa do Abilião." Alguns alunos, de vez em quando, costumavam acrescentar o sufixo gradual "ão" e dizer Abilião (ao invés de Abílio). Não em sentido pejorativo, mas carinhoso. No entanto, frente a frente, jamais alguém o chamou dessa maneira. À distância, nas conversas, o pessoal chamava, mas baixinho. Era o respeito que ele, com carinho e competência, conquistava junto aos alunos. 




Vivíamos a década de sessenta. Nela, hoje é possível compreendermos, ele e os alunos traziam nos ombros o peso da Matemática Moderna. Implantada naquela época, alterou de maneira estrutural o ensino da Matemática. Com ela, em substituição ao tradicional método do raciocínio, chegou um mundo de simbolismos, sentenças matemáticas, teorias dos conjuntos etc. 

Oswaldo Sangiorgi
O professor Osvaldo Sangiorgi, que também era físico, foi um dos líderes da introdução da Matemática Moderna no Brasil. Inclusive, o seu livro Matemática Moderna (quatro volumes) foi adotado pelo seu Abílio e dona Eulália em todas as séries do ginasial do Instituto  Estadual de Educação Dr. Paraíso Cavalcanti, o Ginásio .

O novo método vigente na prática escolar do Brasil aterrorizava alunos e professores. Para muitos, havia nele um certo empobrecimento dessa disciplina. Quem teorizava esse aspecto não eram os leigos, mas os especialistas no assunto. Essa questão dividia opiniões.

Quase cinco décadas se passaram. Não é necessário dizer, ou pelo menos não deveria ser, que o professor Abílio, quando o assunto versa sobre Matemática, é imprescindível.

Hoje, diante de qualquer livro dessa matéria, os alunos daquela época não folheiam duas páginas sem que surja a lembrança desse fenômeno chamado Abílio França Valente, um português na Matemática.

Agradeço aos netos dos professores Abílio França Valente e Eulália do Prado Valente, Ricardo e Roberto, pela valiosa colaboração no que diz respeito à cessão das fotos que ilustram esta matéria.









quinta-feira, 2 de março de 2017

Entrevista com a escritora Heloísa Alves

Nascida em Ribeirão Preto, Heloísa Alves, escritora e professora de Língua e Literatura Portuguesa, é autora do recém lançado "No caminho eu conto", um belíssimo livro de contos. De cara, ela mostra ao leitor um texto fluente, límpido e competente através da forma utilizada para externar as suas impressões e sentimentos.

Dona de uma delicadeza e de um requinte incomum, democratizou toda e qualquer forma de pergunta nesta entrevista concedida ao Blog. Dessa forma, em nenhum momento, a escritora sinalizou com uma placa de Entrada-Proibida. Formulamos perguntas concretas à entrevistada e - em nenhuma delas, recebemos respostas vagas.

Heloísa Alves detém um mérito que, a meu ver, não pode passar despercebido por aqueles que entram em contato com o seu livro. Qual? O aprofundamento a respeito da escolha do gênero literário através do qual ela optou pela sua narrativa, o conto. Essa escolha é característica dos escritores que têm pleno domínio da escrita através de uma linguagem narrativa atraente, cativante e que envolve a curiosidade e emoção do leitor.

De início, aqueles que escrevem contos  sabem da imprecisa definição desse gênero. Conforme muitos já conceituaram, o conto não pode estar apenas atrelado à uma intuição ou inspiração. O escritor precisa de um domínio da linguagem, da forma, do encaixe das palavras e, por fim, de muita reflexão. É assim que Heloísa se conduz.

Para chegar a esse ponto, o que ela precisou fazer? Você irá entender. Para isso, faça uma analogia com o romance, o cinema e a fotografia. O romance apresenta uma ordem aberta e sem limites, além de ser uma narrativa cujo olhar do autor pode ser mais abrangente. Devido a isso, assemelha-se ao cinema. Essas duas produções apresentam uma visão mais ampla dos fatos que contam e das cenas que produzem. 


JULIO CORTÁZAR
Por outro lado, a exemplo da fotografia, o conto fica restrito a um limite físico. Aquela pressupõe uma limitação prévia devido ao espaço reduzido que a câmera pode abranger e pelo modo como o fotógrafo usa essa limitação. No entanto, os dois, o fotógrafo e o contista, fazem um recorte da realidade e fazem dela uma realidade mais ampla. Aqui está o grande mérito de quem escreve esse gênero. A conceituação acima é de Julio Cortázar (1914-1984), escritor argentino nascido na Bélgica e que adotou a cidadania francesa em 1981. Ele foi um dos grandes mestres do conto.

Heloísa assina alguns contos do livro com o pseudônimo de
A AUTORA

Malu Lumièri; outros, com o de Úrsula Jitrois. A esse respeito, a questão se desdobra no tocante à elucidação. Esses contos seriam uma forma de não mostrar um retrato das dimensões psicológicas da autora, caso, em alguma época, antes da publicação do livro, foram publicados através de outro suporte de texto?  Ou uma mera opção? Ou, ainda, contos que participaram de concursos que exigiam pseudônimos? Ou não é nada do que explicitei?

Um resenhista, um crítico literário ou um ensaísta ( o ensaio só se faz depois da crítica feita, pelo menos era assim nos tempos da crítica literária de rodapé dos jornais, oriunda da escola francesa) não resolvem essa charada. Diante de situações dessa natureza, as suas conclusões são hipotéticas. Mas quem entrevista Heloísa com a curiosidade de um menino não precisa deduzir nem ficar intrigado. Basta perguntar, ela conta. É o que veremos na entrevista. Nela, a autora dirime esse tipo de dúvida. 

No entanto, a vantagem da proximidade e/ou de um contato através de meios instantâneos pesam a favor de quem entrevista. Nessa questão, tenho de ser honesto. O crítico, o resenhista e o ensaísta, na maioria das vezes, não têm possibilidades de troca de impressões com o autor da obra.Nesse caso, deixo claro: não se trata de certo ou errado, mas das condições mais favoráveis de quem entrevista.

Em Pelo caminho eu conto , nada está fora do esquadro do gênero adotado pela autora. Nem mesmo os fios soltos dos finais de alguns contos que em Literatura são chamados de finais abertos.


JOÃO LUIZ LAFETÁ
Diante de tudo isso,  resta-me lavrar um flagrante da minha admiração pela competência literária de Heloísa Alves com esta maravilhosa definição do inesquecível crítico literário e professor da Unicamp, João Luiz Lafetá (1946-1996), falecido precocemente:

"Nada de traços caricatos ou esboços grosseiros de personagens e enredo. A técnica é outra: desce com cuidado ao detalhe, desenha-o bem nítido e exibe-o. É uma exibição discreta, sem alarde, mas feita no lugar justo, no instante em que o desenvolvimento da narrativa assim o exige. E sabe também, como poucos, suspender a palavra no momento certo, apenas insinuar aquilo que o leitor completará sozinho."


HELOÍSA ALVES: ESCRITORA, POETA E PROFESSORA

ENTREVISTA
No seu livro deparo-me com uma contista exemplar, uma autora com pleno domínio da escrita e uma irrestrita capacidade de imaginação. Além do conto, você escreve algum outro gênero literário.
Escrevo poemas e poemas Aldravistas. 

A partir de quando você se sentiu pronta para escrever?
Eu sempre gostei de escrever. Parto do princípio que somos todos escritores. Basta ter vontade e estar aberto para se expor à crítica tanto favorável como desfavorável. 
Eu escrevo desde a adolescência.

HELOÍSA ALVES COM A POETA MARA SENNA
Quais os escritores brasileiros de sua preferência?
Clarice Lispector, Machado de Assis, Ignácio de Loyola Brandão, Mara Senna, Ely Vieites, Drummond e tantos outros. Temos escritores maravilhosos.

Os Estados Unidos deram um chega pra lá no colonizador e criaram a Literatura Americana. Não se submeteram à Literatura Inglesa. Em qual delas há um escritor da sua preferência?
Na Literatura Inglesa, adoro James Joyce. Gosto muito de Shakespeare.

Na condição de professora e escritora, você realiza algum trabalho voltado para o incentivo da escrita e da leitura?
BIBLIOTECA E.E. OTONIEL MOTA
Tenho um trabalho de desenvolvimento de dois projetos importantes que incentivam a escrita e a leitura: "Combinando Palavrase "Incubadora Cultural" que depois serão transformados em livro.
"Combinando Palavras" é um projeto de sucesso. Há 10 anos foi escrito para a E.E. Otoniel Mota. Este ano, a Fundação do Livro e Leitura, o SESC e a Diretoria Regional de Ensino de Ribeirão Preto estão levando esse projeto para todas as escolas estaduais de Ribeirão Preto e região.
É um trabalho de releitura. Este ano abrangerá os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo, Lya Luft e Nélida Pinõn. Eles estarão na Feira do Livro de Ribeirão, no Teatro Pedro II, para o lançamento de um livro digital, fruto desse trabalho de releitura. Serão homenageados pela reescrita dos alunos e professores que queiram participar.
A "Incubadora Cultural" é uma parceria entre a USP e o Otoniel Mota.


ESCOLA OTONIEL MOTA
Qual a importância da escola Otoniel Mota em sua vida?
O Otoniel Mota foi a primeira escola que eu dei aula na minha vida. A emoção foi muito grande porque tive a oportunidade de iniciar a minha carreira com grandes profissionais e, entre eles, alguns foram meus professores na Faculdade. A importância da Instituição Otoniel Mota é de grande relevância. Passaram por essa Escola grandes expressões da História Nacional.

Na qualidade de educadora, o que mudaria no ensino atual?
Trabalharia com a Escola da Ponte, do professor português José Pacheco. O aluno busca a construção do conhecimento. Muito mais adequado, o professor trabalha com um orientador e o educando escolhe o que quer estudar cumprindo todo o programa com liberdade.

Qual o fundo musical você colocaria na leitura de um conto seu. Qual conto escolheria?
O fundo musical seria "Eu sei que vou te amar"; o conto, "Uma viagem dentro de casa". 



PSEUDÔNIMO
O motivo de assinar alguns contos com os pseudônimos de Malu Lumière e Úrsula Jitrois, excluindo-se outros desdobramentos por essa preferência,  foi a participação em concursos cujas regras prescreviam a exigência de assinatura autoral fictícia?
Eu nem sei te explicar porque escrevi com pseudônimo. Não sei se foi uma forma de me preservar ou, ainda, por não ter a coragem necessária para me expor totalmente. Esses contos com esse tipo de assinatura são mais antigos, eram guardados de gaveta.

ROMEU E JULIETA
Dizem que, passado algum tempo, o casamento é o lugar onde menos se faz sexo e, quando se faz, é o de pior qualidade: rápido, morno, sem nenhuma emoção. O que você escreveria num conto a respeito da união de Romeu e Julieta lá pelos seus vinte anos de vida em comum? Ou do casal do filme "As Pontes de Madson" ,caso ficassem juntos no final da história?
A convivência se torna morna quando ela é acomodada. O romance de Romeu e Julieta pode ser vivido uma vida inteira, depende de como tratamos o nosso relacionamento. Todos podem ficar juntos até o final. Ou podem viver uma outra história. Por isso, gosto de final aberto.

Não consta no seu livro, mas como se trata de uma atitude comportamental das relações entre os dois sexos (característica muito presente nos seus contos), como é possível explicar a questão do patrão se envolver com a empregada? O que falta na esposa, muitas vezes extremamente bem dotada desse elemento que julgam importantíssimo, a beleza? Já pensou em escrever um conto a esse respeito?
Esse tipo de relacionamento é coisa do passado para mostrar o poder do homem em relação à mulher. Isso acontecia muito na época da escravidão. Hoje é muito diferente. Não tem necessidade de se estar junto se o amor acabou, Posso, sim, pensar em escrever um conto sobre esse tema.


RESTAURANTE LE MEURICE, FRANÇA
O glamour dos espaços em que ocorrem os enredos das suas narrativas é algo incomum. Fico imaginando um restaurante tranquilo, paredes tom pastel (cor quente), mesas afastadas umas das outras, uma música suave, uma conversa ao pé de ouvido e um vinho Klein Constantia Vin de Constance, por exemplo. Você acha que ambientes dessa natureza - cenários ideiais para o amor romântico - ficarão cada vez mais longe das novas gerações ou não?

As novas gerações procuram o romance. É uma outra época. Os lugares são outros: as baladas. Mas ainda existe momentos de muito romantismo e muito amor. 

ESTAÇÃO DA LUZ - SÃO PAULO S.P.

Em qual cidade do Brasil você ambientaria todos os seus contos?
O ambiente brasileiro para os contos do meu livro seria a cidade de São Paulo. Ela tem um pouco de cada lugar do mundo.


ILUSTRAÇÃO DO CONTO "BAILE DE MÁSCARA"
Em seu conto "Baile de Máscara" , página 68 do seu livro, o enredo é um adultério. Poeticamente, o último parágrafo diz assim: "Ambos se entregam enrolam-se e desenrolam o significado da paixão (...). Há uma diferença sútil, mas fundamental, ente amor e paixão. Esta só acontece no adultério. Acabou o adultério, acabou a paixão. O amor é outra coisa. Concorda?
Eu não vejo adultério quando existem momentos únicos que não devem ser compartilhados com ninguém, só entre o casal envolvido. A paixão e o momento são o fogo que abrasa, mas são passageiros. O amor é diferente, mais calmo, mais duradouro. No conto, eles viveram a paixão do momento. Se isso vai se transformar em amor, não sei, depende da criatividade da leitura que o leitor faz.

Considerando o final aberto do seu conto "O Olhar" o casal nunca mais se veria ou se veriam ocasionalmente ou assumiriam um relacionamento definitivo? Apenas na condição de leitora, a sua opção seria por qual desfecho?
Como o final é aberto, cada um imagina o seu final. Na condição de leitora (não de autora), penso na possibilidade só daquele encontro.

Apoiando-me no empoderamento de algumas das suas personagens em "No caminho eu conto", posso conceituar que, através do perfil que elas adotam, é mais fácil despirem-se de todos os seus pudores e vestirem-se com todas as suas fantasias? algo menos habitual em um relacionamento estático.
A mulher moderna é feminina sem ter um comportamento feminista apesar da liberdade de escolha. O sonho e a fantasia fazem parte desse universo. 
ÁLVARO LINS: O IMPERADOR DA CRÍTICA DE RODAPÉ
Até a década de 60 prevalecia a crítica literária de rodapé filiada à escola francesa de crítica literária (que já mencionei em outra pergunta desta entrevista). Através dela, o crítico literário colocava a cabeça a prêmio: dizia se o livro era ou não era bom. Posteriormente, surgiram as resenhas literárias, de tradição americana, que são mais uma divulgação do livro. Hoje, a crítica literária está confinada aos guetos universitários. Vê-se, por exemplo, que naquela época havia o Suplemento Literário. Este foi substituído pelo Caderno Cultural onde a Literatura é obrigada a conviver com um lixo cultural. O que aconteceu?
Hoje temos que ser abertos para as novas linguagens. Como a língua é um organismo vivo, ela está em constante mutação. Às vezes, precisamos prestar atenção naquilo que consideramos uma literatura talvez menor. Eu não diria isso uma vez que, se ela tem espaço, é porque chama a atenção. Precisamos fazer uma reflexão maior sobre essa nova linguagem e entender que ela é também Literatura.

Seu poeta favorito?
Vinicius de Moraes.


HILDA HILST
Vinicius de Morais namorou a escritora Hilda Hilst, uma mulher muito à frente da época dela. Numa restaurante à beira de estrada, decidiram saborear churrasco de carneiro. Vinicius escolheu o carneiro a ser abatido para o churrasco. Parecia em êxtase enquanto participava desse ritual. Hilda Hilst se levantou e foi embora. Não acreditava que um homem como Vinicius, inundado de poesia, adotasse essa postura. O namoro acabou ali. Como você qualifica essa atitude do poeta?
Hilda Hilst foi uma grande poeta. Vinicius o poeta maior. Penso que o namoro não acabou por causa disso. Senão eles não teriam ido a esse lugar para saborear o churrasco de carneiro. Alguma outra coisa a incomodou.


BOBY DYLAN
Boby Dylan é o mais recente Prêmio Nobel de Literatura. Concorda com a escolha dele? Qual a sua opinião pela ausência de Boby Dylan na entrega do prêmio?
Eu acho muito merecido o prêmio para um homem que é um poema. A vida toda dedicou-se à música. Suas letras são poemas. E a música o fundo para os poemas nos encantar. Eu vejo tudo como Literatura: a música, a moda, a dança, o grafite, as telas de pintura, o teatro, o cinema e toda e qualquer expressão de arte que mostra mudanças e nos contam a história através dos tempos. Os sons se modificam. A pintura muda através do momento literário.
Quanto ao não comparecimento dele, não é o primeiro que deixa de comparecer. O importante é o reconhecimento pelo seu trabalho.


HELOÍSA ALVES

Descreva Heloísa Alves para o leitor.
Sou uma pessoa que acredita na vida e na bondade e capacidade do ser humano. Se todos nos uníssemos para uma educação de qualidade teríamos um mundo muito melhor. Só a Educação e a Arte podem transformar o mundo.


NOTA DO BLOG
Importa acrescentar a sua imensa densidade humanística. Obrigado, Heloísa.
                                                                                 





sábado, 25 de fevereiro de 2017

Entrevista com Cecília Figueiredo

POETA, ESCRITORA E TRADUTORA


Natural de Franca, estado de São Paulo, a escritora, poeta e tradutora Cecília Figueiredo é a entrevistada do Blogo Mosaico Cultural neste mês de fevereiro de 2017. Durante mais de trinta anos, residiu em Ribeirão Preto, estado de São Paulo. É, portanto, riberopretana por afeto.

Graduada em Letras, com especialização em adultos, pós-graduada em Tradução, a autora ministra aulas de inglês. No momento atual, o seu foco principal direciona-se para traduções técnicas, um complexo ato interpretativo.

Na condição de literata, conquistou diversos prêmios, participou de Antologias e, com a experiência e zelo que lhe são inerentes, prefere - no que diz respeito à edição de seus livros - um recuo qualitativo ao invés de um salto quantitativo. Dentro desse contexto,  assina dois livros solos: Paixão Vírgula Paixão (2007), Editora Funpec, livro de poesias publicado com o incentivo do escritor Menalton Braff, Prêmio Jabuti de Literatura (ano 2000) com o livro À Sombra do Cipreste”. Por sinal, seu amigo.

A Casa da Instabilidade, seu segundo livro, foi lançado em 2010. Na época, Cecília Figueiredo conciliou o seu status de destaque dos autores da Feira do Livro de Ribeirão Preto, uma das mais importantes do Brasil, com o lançamento do livro. Nele, a autora se manifesta através de uma prosa poética contemporânea. 

As capas dessas suas duas obras literárias fazem um pêndulo entre si no que diz respeito ao estilo contemporâneo dessa roupa do livro. Nelas, nota-se uma perfeita hierarquia de informação. Portanto, muito bem conceituadas.

Nossa entrevistada comenta a respeito de um dos romances que constam na relação daqueles com reputação de dificuldade: "Finnegan’s Wake" ,  de James Joyce. Explica, 
também, a prevalência de Carlos Drummond de Andrade na literatura brasileira, mesmo após a morde dele. Relembra poetas mais esquecidos, mas extremamente competentes. Alcides Villaça, entre eles.

Cecília Figueiredo fala com mestria sobre Poesia, Tradução, autores consagrados, entre outros assuntos. A escritora e poeta é membro da Academia Ribeirãopretana de Letras. Em sua produção literária nos deparamos com uma escritora imaginativa e refinada. Ao final, a autora se autodefine. Então, vamos à entrevista.

CECÍLIA COM MENALTON BRAFF, PRÊMIO JABUTI (2000), SEU PADRINHO LITERÁRIO

Poeta, escritora e tradutora

A partir de que momento você decidiu tocar os seus leitores com esse fio de eletricidade desencapado chamado Poesia?
Uma pergunta difícil de responder com simplicidade. Posso dizer que me descobram poeta quando publiquei meu primeiro livro de poemas (Paixão Vírgula Paixão, Funpec, 2007), muito estimulada pelo meu amigo Menalton Braff. O segundo livro A Casa da Instabilidade veio logo depois, também pela Funpec, em um estilo diferente, prosa poética e poesia. Não publico desde então, mas a poesia não me deixa, é um estado em mim e nunca uma condição.


A Casa da Instabilidade, seu segundo livro, trata a respeito dos conflitos da religiosidade, entre outros temas. Em seus enfoques a esse respeito, você se aproxima ou se distancia de Nietzsche?
Nietzsche, apesar da educação cristã, desconstruiu a ideia de Deus. Baseado em premissas de que Deus está morto, ele vem reforçar a posição da fé como uma ação consoladora, destinada aos mais fracos.
A metafísica em Nietzsche é inexistente. Comparando minha obra A Casa da Instabilidade” ao pensamento de Nietzsche, minha obra apresenta fundamentos cristãos que podem estar mais ou menos presentes, uma busca alentada pelo reconhecimento do divino em nós, e por conseguinte, na supremacia da poesia. Assim sendo, discordo em ponto de vista e ainda ressalto que Deus não está morto e sim, atuante em nossas ações, e em mim, particularmente.

Na dupla matéria/espírito, qual é a primeira voz na sua poesia?
Ambos. Minha poesia é um reflexo do mundo e em tudo que nele há. Falo do pato para falar de mim mesma, das angústias do ser humano, da metafísica. Se do mundo sou parte, faço dessa parte a minha sublimação.

Na condição de poeta, prefiro à grafia poetisa (termo correto), você se considera, e ao mesmo tempo não se considera, uma mulher diferente daquelas que não escrevem poesia?
É interessante como o termo correto "poetisa"  não me agrada. Chamo a mim mesma de poeta, atropelando as regras. O poeta para mim não teria gênero, somos todos os transmissores da revelação da vida em forma de arte, portanto, como  as "antenas", rejeito a regra. Considero-me diferente de algumas pessoas que não escrevem poesia apenas no quesito da sensibilidade, embora muitas pessoas que conheço sejam hiper sensíveis e não escrevem. A escrita para mim é apenas uma questão de oportunidade e nisso me sinto muito agradecida. Sabemos que a poesia no Brasil ainda representa uma grande dificuldade, não somente entre os poucos leitores, mas no mercado editorial, portanto, há tantos poetas desconhecidos buscando uma pequena chance para a publicação. Nós, os que já publicamos e temos visibilidade, mesmo que pequena, sentimo-nos satisfeitos. Nesse ponto, posso me sentir diferente daquele ou daquela que ainda busca um espaço.

O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Tenho muita facilidade para escrever poemas, escrevo a qualquer hora e em qualquer lugar, não prescindindo de inspiração ou condições favoráveis. Isso me dá um prazer imenso, é como se minha boca falasse poesia sob o meu controle. Mas é claro que isso não significa que a poesia tem qualidade. O trabalho de burilar, cortar, acrescentar, essa é a verdadeira feitura da poesia. A voz ressoa no poeta, a razão conserta. 
Como faço isso? Leio em voz alta o que escrevi e respeito o ritmo do texto - só assim, as sílabas através dos sons faz o poema nascer. Nisso há muito mais prazer, descobrir a certa e musicalmente ajustada, é incrível.

Quais dúvidas e certezas guiam o seu trabalho literário?
Todas as dúvidas e nenhuma certeza. Minha autocrítica é maior do que eu; talvez seja por isso que venho me recusando  publicar a qualquer custo. Depois de conhecer poetas geniais você passa por um crivo de angústia e aridez, é preciso ter coragem para publicar e ainda mais coragem para reconhecer sua poesia.


Há uma mediação entre você e “você” nos poemas mais indevassáveis que eventualmente escreveu e ainda não se decidiu a publicá-los? Ou já os inaugurou? 
A primeira censura é ainda mais cruel quando parte de nós mesmos. Confesso que temi a opinião pública do meu último livro A CASA DA INSTABILIDADE  por me achar exposta demais; felizmente, os leitores usam os olhos e o entendimento da sua visão particular de mundo, de modo que a poesia passa a ter uma ressignificação. Mas é claro, ainda há muita coisa que escrevi e que ainda não pensei em publicar, pelo menos por enquanto.


A sua relação vida/literatura é complicada? 
Complicada? Não. Essencial. Não saberia viver sem a literatura; estou cercada por ótimos livros, grandes autores, respiro e vivo a literatura maximamente, embora eu tenha pena que a vida seja tão breve e tanto ainda há para se ler. Embora meu ofício seja a língua inglesa, coloco a literatura em primeiríssimo lugar na minha vida.



O que caracteriza uma boa poesia, quando parece que já testaram todas as fórmulas dentro desse gênero?
Vou começar a responder a pergunta com um trecho de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto:


JOÃO CABRAL DE MELO NETO
"...E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida;mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida;mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina."


Não há beleza que se compare a estes versos; a simplicidade dos vocábulos não exclui sua qualidade. Observando os recursos linguísticos deste poema, constatamos que o ritmo está fluido e leve, como deve ser. O poeta não teme repetir palavras (exemplo: vida), que no caso enriquece a feitura dos versos. O uso do substantivo fábrica me deixa assustadoramente encantada. Neste pequeno trecho, ele ousa repetir a palavra explosão. Diríamos: que pobre poema? Não diríamos que este recurso de linguagem pode ser usado de maneira inteligente, embora tão óbvia, atinge em cruz o coração e a cabeça do leitor. Genial.
Não creio em testes de gênero, creio na genialidade do escritor, aquele que sabe manipular a língua, que domina os sons, que entremeia os sentimentos universais aos seu próprios. Sabemos que alguns poetas brasileiros também se arriscaram no temível gênero do Haikais e saíram-se muitíssimo bem. Como exemplo, um haikai de Paulo Leminski:


A noite - enorme

Tudo dorme
Menos teu nome
(P.L.)

E este maravilhoso haikai de Guilherme de Almeida:

Os andaimes
Na gaiola cheia

(pedreiros e carpinteiros)

o dia gorjeia.

O que você escreve atualmente?
Atualmente escrevo como exercício de escrita. Contos curtos, poemas, alguma prosa poética, tudo sem qualidade que julgo necessária para publicação. Penso que não tardará o ajuntamento de tudo a consequente publicação, mas creio que me exigirá uma boa revisão.

Que defeito é capaz de anular ou comprometer um livro?
Não vou me referir à revisão do livro, pois isso é responsabilidade do editor e em nada compromete o autor, mas é uma questão importante. No mais, a falta de consistência entre a introdução, desenvolvimento, ápice e conclusão do livro. Personagens mal descritos e história sem envolvimento também são cruciais. Estou me referindo à romances. No caso de um livro de poemas, a poesia tem que ser boa, surpreender, trazer uma emoção, uma inquietação ao leitor - se isso não acontece, já nasceu destruído.


No instante atual, entre a interpretação dos sonhos (Freud) e o costume da leitura das mãos pelas ciganas, qual dos dois temas escolheria para escrever um texto?
Ou não escolheria nenhum deles? A pergunta funda-se na possibilidade de soar ridículo para alguns sonhar com a Torre de Pizza, um lápis etc. e estabelecer padrões com a sexualidade, com as fixações (linha adotada por Freud).

No instante atual que vivemos, quando a rudeza da vida está praticamente estampada em nossos rostos e em todo nosso entorno, eu escolheria os dois temas acima para escrever um texto ou mesmo um poema. Acredito que o escritor/poeta não dispensa temas - é do nosso cotidiano observar, internalizar, entender e criar todos os tipos de tópicos de nosso tempo - aliás, não seríamos nós os tradutores de nossa sociedade? A ciência, como a de Freud, embora lúcida também se apresenta lúdica, e os costumes populares, embora lúdicos, também apresentam soluções razoáveis. Tudo no mundo é matéria de escrita.


Um autor para sempre?
Salvo os grandes autores já consagrados através de suas obras universais, não acho que um autor seja pra sempre. Estamos sempre em busca de um texto que nos represente e que de alguma forma, nos diferencie dos demais e essa busca nos modifica e também nos amadurece. Há autores que ficaram na mesma e velha fórmula e pouco de transcendência foi acrescentando em sua obra. Gostaria de estar enganada, mas daqui a 1 ou 2 séculos, quem ficará na história da literatura brasileira? Muitos desaparecerão, é um fato triste, mas é um fato.


A sua atuação como tradutora contempla apenas obras técnicas. Estas são um gênero textual, não um gênero literário. Há como escapar da tradução fiel nesse tipo de atividade tradutória?
Tenho trabalhado como tradutora de material técnico dos mais diversos segmentos, desde a Engenharia até os campos mais complexos da Biologia. Não poderia declarar que esta única atividade me realiza como escritora, já que a literatura técnica tem um comportamento mais rígido onde a soluções para as traduções são bem mais previsíveis. Uma tradução puramente literária traria mais prazer, porém, não é o que o mercado demanda, infelizmente. Claro que trabalhar com as palavras, tecnicamente ou não, sempre traz alegria a alguém que ama escrever e mesmo depois de tanto tempo trabalhando com traduções, ainda tenho experiências de grande aprendizado. 


PAULO MENDES CAMPOS
À margem das traduções de caráter técnico, qual livro desejaria traduzir da língua de partida, o Português, para a língua de chegada, o Inglês e vice-versa?
Admiro o trabalho de alguns tradutores literários, pois muitos deles são ou foram escritores de grande monta.  Assim, mestres na arte da escrita, contribuíram muito na literatura estrangeira tal como chega para nós. Exemplos? Paulo Mendes Campos, que traduziu Charles Dickens, Raquel de Queiroz traduziu quase quarenta títulos e Monteiro Lobato, um grande tradutor que não admitia plágio, e portanto de uma fidelidade questionável porém rica, tem mais de 50 obras traduzidas, como por exemplo, Lewis Carroll, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas.
Não me considero uma tradutora literária já que não tenho experiência neste campo por absoluta falta de oportunidade, mas adoraria verter para o inglês poetas cujo estilo direto e sarcástico eu admiro muito, como por exemplo, Paulo Leminski. As soluções de traduções seriam um desafio e se 
LEONARD COHEN
algum editor se interessar, aqui estou eu! Quanto à tradução de autores estrangeiros, eu adoraria traduzir Leonard Cohen, esse grande artista canadense que nos deixou recentemente. É dele este verso:  There is a crack in everything, that’s how the light gets in. Como traduzir esta genialidade? Talvez: Em tudo há rachaduras para que a luz entre enfim. 

No que diz respeito à revisão, pressupõe-se que a edição de um livro traduzido cumpre o mesmo ritual de uma edição nacional. Caso a pergunta seja pertinente, como fica o relacionamento entre o tradutor e o revisor da obra, muitas vezes conflituoso entre autor e revisor. Ou o tradutor cumpre essa duas funções?
O livro técnico traduzido recebe um tratamento ainda mais rigoroso quanto à sua edição. Na maior parte das vezes é preciso respeitar a obra original não só em seu conteúdo, mas também na capa e demais detalhes, como formatação, número de paginas ou ainda a mesma fonte para que a obra possa conceber maximamente a sua primeira concepção. Mas é claro, cabe ao editor a decisão de manter ou não as características da obra, sendo ele o responsável pelo sucesso de vendagem. O relacionamento entre o tradutor e o revisor da obra técnica é portanto mais próximo do revisor e portanto, passível de inúmeros ajustes e correções, o que não ocorre nas obras literárias, nacionais onde o autor ou tradutor tem liberdade de expressão.


JAMES JOYCE
Na sua condição de tradutora, Finnegan’s Wake (wake em minúscula para alguns), de James Joyce, ainda permanece à espera de decifração? Ou, juntamente com Ulisses, se instala onde existam apenas doutorados em Teoria Literária? Ou é uma brincadeira de James Joyce? Ou seria apenas um delírio da arte vanguardista, um antiromance? Por fim, é admissível pensar que Joyce renovou mais a narrativa do que a linguagem? 
James Joyce levou 17 anos para escrever esta obra; isto deve significar um imenso comprometimento linguístico no que tange a complexidade que ele envolveu nesta obra. Trata-se de uma ficção cômica com o uso de variados vocábulos emprestados de outras línguas. Os grandes tradutores brasileiros, os irmãos Campos (Haroldo e Augusto) traduziram o título como Finnicius Revem, uma solução brilhante enviesada para o Latim. Eu pessoalmente acredito que esta obra foi uma experimentação linguística, de muito êxito, por sinal, mas confinada a poucos estudiosos literários. Concordo com você no que se refere a um desenvolvimento da narrativa, pois a linguagem é densa e muitas vezes, entediante. Temos um exemplo nacional para quem revolucionou a linguagem: Guimarães Rosa.

Considerando a forma como Guimarães Rosa mobiliza a escrita, eu não presentearia alguém apenas com um título dele. Grande Sertão: Veredas, por exemplo. Anexaria ao presente um Léxico desse autor. Que, por sinal, já existe no mercado editorial. Do seu ponto de vista (vamos deixar de lado as possibilidades de consultas pela Internet), seria uma indelicadeza da minha parte ou uma atitude imprescindível (independente do nível do destinatário do presente)? 
Absolutamente! Seria um privilégio para qualquer leitor receber um exemplar de qualquer livro de Guimarães Rosa. A despeito da dificuldade de compreender a linguagem, seria uma oportunidade única para o leitor (ainda que comum) entrar em contato com a diversidade e riqueza deste escritor fantástico, que reputo como um dos maiores escritores de toda a literatura moderna.

GEORGE ORWELL
Em suas conexões com as produções estrangeiras é possível crer que o livro Fazenda Modelo, de Chico Buarque, é a Family Farm, de George Orwell, requentada?
Não diria requentada, mas de grande influência do célebre título ANIMAL FARM, a Revolução dos Bichos. Sabemos que George Orwell, jornalista e ensaísta inglês escreveu esta obra sob o signo da ironia referindo-se à sociedade inglesa de sua época, especialmente sobre o período de Stalin na Rússia.
Chico Buarque, igualmente, teve uma educação altamente política, sendo exilado para a Itália no período da ditadura no Brasil, e de forma semelhante, retrata esse período brasileiro através de recursos mais ingênuos que pudessem sintetizar e revelar a situação brasileira.
Não é de Lavoisier a célebre frase? "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." Na minha opinião,  a Fazenda Modelo, esta obra é um espelho da grande obra de Orwell. 

Sob o seu ponto de vista, o Brasil é um país mais voltado para as edições ou para as reedições de livros?
O Brasil neste último ano apresentou um aumento de vendas de livros desde a literatura internacional, alguma nacional, incluindo os livros infanto-juvenis e grande variedade de livros técnicos. A poesia não tem apresentado ainda uma grande representatividade em vendas, muito óbvio que isso aconteça, pois a poesia ainda ocupa um lugar mais hermético na preferência do leitor. Mas eu gostaria de salientar sobre a existência das pequenas edições, nem sempre computadas, como as de escritores de pouca exposição, aqueles que além de produzirem suas obras são obrigados a custear seus livros e vendê-los. Atualmente temos também o fenômeno da internet, espaço acessível e democrático, que nos leva a conhecer inúmeros talentos. Acredito que as reedições de sucessos literários sempre terão espaço nas livrarias e que a chegada de novos nomes, especialmente os nacionais, ainda têm pouca chance de chegar ao público através de grandes editoras.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Para alguns críticos literários, Carlos Drummond de Andrade ainda é o poeta que prevalece na literatura brasileira? Você acredita que há poetas atuais que possam reverter esse compasso de espera?
Os críticos literários sabiamente aguardam o amadurecimento do autor para celebrar este ou aquele talento (quando não os deles próprios). No Brasil atualmente considero alguns poetas de extrema habilidade e sensibilidade, como Alcides Villaça, nascido em Atibaia em 1946, professor de literatura, cujo verso é intrigante e ao mesmo tempo pictórico, cheio de frescor. Embora não seja jovem, Villaça é um dos poetas contemporâneos que suscitam em mim a plenitude da poesia, embora ainda seja desconhecido do grande público. Na minha opinião, não substituiria Drummond porque poeta algum substitui o versos de outro, mas posso classificá-los como poetas de grande quilate.Deixo aqui um poema de Villaça de que gosto muito para que possam desfrutar e analisar:


POETA ALCIDES VILLAÇA

Viagem
Imagine
se sobre a casca do ovo pequenino
tombasse uma gota de limão corrosivo
e mal nascido quanto mal desperto
o filhotinho tivesse que voar
contra cortantes facas amarelas

como haveria ele de entender
a beleza sem parar das feridas?
teria tempo para sentir
a falta das penas sonhadas?
saberia como cantar
o brilho de cada susto de morrer?

(Não sei te explicar
essa luz que fia e desconcerta
meus melhores dias).

Sóror Juana Inés de la Cruz, freira que viveu na Nova Espanha (México) no século XVII, assina um poema que expõe em seus sonetos uma geometria de afetos.  Um triângulo do qual descrevo um trechinho: : " (...) ama Fabio, que não a ama, não gosta de Silvio, que não a quer (...)".  Qual o paralelismo que você faz com o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, redigido séculos depois?

SÓROR JUANA INÉS DE LA CRUZ
Fiquei muitíssimo curiosa a respeito dessa poeta nascida no México em 1651, reservei um tempo para visitar sua obra, conhecer a temática dos escritos e entender o período político e social em que ela estava inserida. Descobri coisas incríveis: chamada de A Fênix do México, pode ser considerada a primeira feminista das Américas. Dona de rara beleza, inteligência notável e grande perspicácia, foi ela quem decidiu entrar para o convento; primeiramente por rejeitar o casamento, na maior parte das vezes, arranjado, e principalmente porque as igrejas e universidades seriam o locais de aquisição de conhecimento. Sabemos que à época, as universidades eram destinadas somente aos homens. Ela escreveu peças de teatro, textos encomendados para ocasiões de celebrações, e mais ainda, estudos filosóficos sobre a vida e a sociedade local. No soneto que fala da Geometria de Afetos, o trecho (...) ama Fabio, que não a ama, não gosta de Silvio, que não a quer (...)" pode ser comparado ao poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade: uma perfeita sintonia das angústias e situações cotidianas das relações humanas. A literatura, e mais especificamente a poesia, trata de assuntos voltados ao eu universal do poeta o que representa um selo de temporalidade.Ora, se as relações humanas ainda apresentam essa complexidade de afetos, é natural que Soror Juana tenha retratado essa dificuldade em seu tempo, assim como Drummond, modernamente. Creio que se nos dedicássemos a investigar poderemos descobrir outros poetas oriundos de diferentes épocas em todo o mundo que também apresentaram essa questão, embora em linguagens e contextos diversos.

Excluindo a tecno-arte-poesia no Brasil (poesia eletrônica, hipertexto, poesia permutacional, poesia digital, poesia virtual, infopoesia, videopoesia, holopoesia, multimídia etc.), a poesia concreta é o último movimento literário renovador? Ou não devemos considerá-la Poesia, mas apenas exercícios tipográficos?
EXEMPLO DE INFOPOESIA


EXEMPLO DE POESIA CONCRETA
Não reconheço a poesia concreta, no Brasil como as de Ferreira Gullar, Paulo Leminski e agora, mais recentemente, de Arnaldo Antunes como o último movimento literário. Creio que seja apenas uma das muitas expressões da poesia, de fácil leitura e grande comunicabilidade. Talvez esses traços sejam benéficos à nossa poesia no sentido de que o público possa melhor compreender e apreciar a poesia, tão duramente criticada por ser entediante aos olhos do leitor comum.

Fale um pouco de Cecília Figueiredo em toda a sua extensão.
CECÍLIA FIGUEIREDO 
Gosto de falar de mim usando a metáfora do vidro que está em meu primeiro livro: "sou uma mulher simples, como todo poeta é simples - simples como a feitura do cristal vindo da areia". Penso que essa figura sintetiza minha essência. Sou poeta, isso já é um fato e tanto. Mesmo em meio à lida, em meio ao trabalho, cuidando das coisas práticas, sinto-me poeta, pois tudo que vejo e que não vejo me tocam, logicamente de maneiras diversas.Não sei se todo mundo é assim, mas comparando-me às pessoas com as quais convivo, observo que eu sou mais atingida pelas ações da vida. Mas gostaria de confessar aqui um pecado e que muitos não entenderão: não gostaria de ter nascido poeta. Gostaria de ter um coração mais distraído e portanto, menos pisado. Gostaria de ser uma escritora de histórias, narrar fatos e nunca colocar o sentimento na escrita, ficar à parte, me esconder nas personagens, mas isso para mim ainda não se tornou possível. Para mim, ser poeta e tornar público a sua poesia é escancarar-se. Acho isso temerário e corajoso ao mesmo tempo.
Também tenho adoração pela palavra - falada ou escrita. Isso, desde muito novinha; há palavras em português que me são muito saborosas (exemplo: espetáculo - essa palavra deriva do latim, SPECTACULUM, SPECTARE, algo para se observar visualmente. Mas é a melodia da palavra que me encanta, aliás, quase todas as palavras que possuam a letra " L " , não importando se no início, meio e fim. A letra "L" dá uma musicalidade nas vogais de maneira encantadora, pois o jeito que a língua bate nos dentes superiores é belíssima. Exemplos: lábios, limbo... Já no meio ou fim das palavras, em português, o "l" se comporta como "u" na maioria das vezes, portanto, mal, carnal, calma.... aí é um comportamento sorrateiro, gosto disso... Preocupo-me com as palavras talvez porque venho praticando a língua inglesa desde os meus 17 anos. Morei nos EUA e quando voltei, cursei Letras e mesmo durante a graduação eu já dava aulas de Inglês.Faço isso até hoje, portanto o inglês para mim tem a mesma relação com o português, embora literariamente somente em português eu consiga fazer poesia.
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