domingo, 30 de julho de 2017

Desejos na gravidez



Todos os anos, pouco antes do mês de agosto, a jabuticabeira do quintal daquela casa exibia uma belíssima e perfumada florada.  Sinalizava a frutificação.  Em breve, amadurecidas, as frutas se deixariam querer. Mas já terminava setembro. Com ele, a safra dessa doçura de fruta, a jabuticaba. Por isso, a árvore estava quase toda depenada. A sete metros acima do chão, o topo da copa ainda ostentava algumas que restaram.

Nesse cenário, Maria Eugênia berçava a primeira gravidez. Vivenciava aquela fase de vontades incontroláveis. Teve o desejo de provar um pouco das jabuticabas que estavam lá em cima. Mas com uma exigência: colhidas pelo próprio marido. 

O cara, coitado, enfrentava uma labirintite leve. No entanto, incômoda. Fez o sinal da cruz por uma, duas, três, quatro vezes. Só não fez mais porque a mulher gritou:
- E aí, não vai subir? Só a criança é quem demora nove meses pra nascer.

Disposto a não colaborar com a provocação, Marcos, esse era o nome dele, começou a escalada. Pensava: "Se eu cair e morrer, a criança não conhecerá o pai. Caso eu não morra, conhecerá um pai deformado; porém, caso não satisfaça o desejo de minha mulher, posso causar alguma sequela ao bebê". A certa altura, enfiado na copa da árvore, outra preocupação bateu forte: "Só faltava encontrar uma caixa de marimbondos pelo caminho". Felizmente, conseguiu colher as frutas e descer ileso.

Retirou-as de um saquinho, depositou-as no côncavo das mãos de sua mulher. De tanto que brilhavam, as jabuticabas pareciam pérolas negras polidas. Estas, por incrível que pareça, existem. Ao passar os olhos pelas jabuticabas e possuída pelos desejo inusitado que a acometia, disse:
- Estas não, Marcos. Eu quero as que estejam bicadas pelos passarinhos.   

Há uma crença fundada na superstição a respeito dos desejos das grávidas.  As vontades não realizadas trariam consequências à criança que vai nascer. E o casal compartilhava dela. Temos aí uma deformação cultural que ainda vigora.

Três anos depois, Marcos e Maria Eugênia curtiam felizes a espera do segundo filho. Desta vez, a coisa foi diferente.  O desejo dela não ficou atrelado a algo de comer. Tampouco àquilo que não fosse, mas a grávida deseja experimentar. Um pedaço de telha, por exemplo.

O desejo de Maria Eugênia, filha única do casal Quinzinho e Marieta, foi além de tudo isso.  Não tivera um irmão, queria um.
- O que é isso?  - dizia Marcos - seus pais já morreram, querida.
- Eu quero um irmão, eu quero um irmão. - passou a ser o discurso dela. 

Esperto, o marido colocou-a em contato com as religiões nas quais os fiéis se tratam por irmãos.
- Esses são irmãos de fé, assim não quero. - rebatia.

- Puxa vida! – ele exclamava.
E pensava: “Em sua floração (gestação), frutificação (parto), a jabuticabeira na qual colheu as jabuticabas não deu nenhum trabalho. E, no mínimo,  produziu mil quilos de jabuticaba naquela safra.”.

O desejo de sua mulher estressava-o. Após o trabalho, passou a chegar mais tarde em casa.  Esticava o trajeto de volta, ficava no bate-papo com os amigos.  Em uma dessas vezes, encontrou o Neneco, um colega de juventude. Famoso boateiro da cidade, ele sabia de uma história importante, Ficou matutando em que tom sussurraria o fato nos ouvidos de Marcos. Sempre tivera uma queda por Maria Eugênia, queria livrá-la daquela situação que já era do conhecimento da cidade inteira.

Tomou coragem e entrou no assunto:
- Marcos, você é advogado. O que vou contar não é calúnia nem difamação. Quero seu compromisso de que o assunto ficará sob sigilo.
- Algo grave? - o outro perguntou.
- Algo nevrálgico, mas é necessário vir à tona. - respondeu.
- De minha parte, sem problemas. - disse o outro.
- Com relação à aparente impossibilidade da realização do desejo de sua esposa
nesta gravidez, vou tentar ajudá-los. 
- Aparente? - perguntou o marido de Maria Eugênia.
Neneco mandou ver:
- Houve uma saia - dona Samira - entre seu Quinzinho e dona Martinha, seus sogros. Dessa relação extraconjugal nasceu o futuro médico, Dr. Alberto Rebouças, o Bertinho.  

Marcos enfiou o rosto entre as mãos. Espantado, disse:
- Não acredito.
O outro pormenorizou com detalhes praticamente inquestionáveis. Apesar de boateiro, Neneco foi levado em conta. O boato tinha contornos de verdade.

Àquela altura, todos os envolvidos, com exceção de Bertinho, eram um bando de falecidos. Bertinho foi colocado a par do assunto, concordou com o teste de paternidade e maternidade. Os corpos foram exumados e o teste, consumado. Deu positivo. Repetiram o exame, deu positivo novamente.

Com a fisionomia eufórica, Marcos, munido de toda documentação e acompanhado de Bertinho, foi ao encontro da esposa. Com sutileza, contaram a novidade. 

Ela leu os documentos. Em seguida, imergiu em pensamentos. Depois, com calma profunda, disse:

- Ele não é irmão, é meio-irmão. Fração é assunto da Matemática. 

Texto registrada na Agência Brasileira do ISBN (International Standard Book Number) - Ministério da Cultura - Fundação Biblioteca Nacional, sob número 978-85-63853-54-7. 

Imagens: Google.

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