quinta-feira, 13 de abril de 2017

Professor Abílio França Valente

Professor Abílio, sua esposa, Eulália e a filha caçula, Beatriz
Nascido em Portugal, o professor Abílio França Valente veio para o Brasil com dezessete anos de idade. Por aqui, graduou-se em Matemática. Fixou-se em Bebedouro, estado de São Paulo, onde constituiu família. Juntamente com sua esposa, Eulália do Prado Valente, também professora de Matemática, lecionou como professor efetivo no Paraíso Cavalcanti, o Ginásio Estadual. Na rede particular, foi professor do Colégio Anjo da Guarda.

O início de suas aulas se dividia em dois momentos matematicamente calculados. No primeiro, chegava rápido, sempre vestido com o seu inseparável jaleco branco. De imediato, preenchia com exercícios as duas lousas da sala de aula. No segundo, com um jeito matreiro, fazia a chamada. A essa altura, os alunos já estavam resolvendo os exercícios. Como se vê, não perdia tempo.

Zoca nos dias atuais
Três dos alunos que acertavam os exercícios sujeitos à nota faziam a resolução na lousa. Entre eles, o Zoca (Joaquim Ozório Manuel de Souza Pinto, com “z” mesmo), hoje professor, que pertencia à turma que acertava todos. Seu Abílio olhava pra ele e dizia num tom meio cantado: "Ozório, Ozório, Ozório, é seu, é seu, é seu." O Zoca ia à lousa e transcrevia do caderno para o quadro negro o exercício que resolvera corretamente. 



Jornalista Quim Moreira
Com o Quim Moreira (Joaquim Moreira Filho) não era diferente: "Moreira, Moreira, Moreira, é seu, é seu, é seu." O danado do Quim Moreira era bom aluno. Mas preferiu a profissão de radialista e colunista social à Matemática. Não se pode esquecer o grande trabalho social que  faz com as crianças de Bebedouro. Caso o professor Abílio fosse vivo, aplaudiria.

E do quarto exercício em diante, o que acontecia? A coisa pegava. Se, por um lado, havia alunos que interagiam com a matéria, havia, por outro, os que eram fracos em Matemática. Diante desses, seu Abílio usava a psicologia. Olhava pra um, pra outro, e dizia: "Quem vem? Quem vem? Quem vem?" Não estava chamando ninguém pelo nome, mas era como se chamasse. De repente, alguém se levantava e caminhava de cabeça baixa até o quadro negro.

Nesse momento, caso o aluno não desenvolvesse o exercício, o professor dizia: "Preste atenção, que é simples." E o ensinava prazerosamente, era generoso ao ensinar. Pôr os pingos nos "is" das dúvidas, isso era com ele. Com esse método, motivava esse tipo de  aluno a progredir na Matemática.

Jornalista Chico Senna
Algumas vezes, apontava e colocava o indicador sobre o exercício na lousa, olhava para a classe e dizia: “Hum, o Francisco está doidinho pra fazer este". E lá ia o Chico Senna.  Contrariado, resmungando, mas ia. Questionador, não é à toa que se tornou jornalista. 


Professor Abílio
 provocando
risadas
Outras vezes, dirigia-se para a turma do fundo da classe. No meio dela, o Jamil Sahium. Por sinal, um grande colega. Encarando aquela turma, o professor Abílio dizia três vezes: "Sai um lá de trás e vem.", "Sai um lá de trás e vem.", "Sai um lá de trás e vem.". 
Fingia que chamava qualquer um, mas, na realidade, estava chamando o Turco, apelido carinhoso pelo qual o Jamil Sahium era tratado. E lá ia ele para a lousa. A classe desabava de tanto rir.

Era comum os colegas brincarem com o Jamil antes das aulas de Matemática: "Jamil, hoje você não escapa do Abilião." Alguns alunos, de vez em quando, costumavam acrescentar o sufixo gradual "ão" e dizer Abilião (ao invés de Abílio). Não em sentido pejorativo, mas carinhoso. No entanto, frente a frente, jamais alguém o chamou dessa maneira. À distância, nas conversas, o pessoal chamava, mas baixinho. Era o respeito que ele, com carinho e competência, conquistava junto aos alunos. 




Vivíamos a década de sessenta. Nela, hoje é possível compreendermos, ele e os alunos traziam nos ombros o peso da Matemática Moderna. Implantada naquela época, alterou de maneira estrutural o ensino da Matemática. Com ela, em substituição ao tradicional método do raciocínio, chegou um mundo de simbolismos, sentenças matemáticas, teorias dos conjuntos etc. 

Oswaldo Sangiorgi
O professor Osvaldo Sangiorgi, que também era físico, foi um dos líderes da introdução da Matemática Moderna no Brasil. Inclusive, o seu livro Matemática Moderna (quatro volumes) foi adotado pelo seu Abílio e dona Eulália em todas as séries do ginasial do Instituto  Estadual de Educação Dr. Paraíso Cavalcanti, o Ginásio .

O novo método vigente na prática escolar do Brasil aterrorizava alunos e professores. Para muitos, havia nele um certo empobrecimento dessa disciplina. Quem teorizava esse aspecto não eram os leigos, mas os especialistas no assunto. Essa questão dividia opiniões.

Quase cinco décadas se passaram. Não é necessário dizer, ou pelo menos não deveria ser, que o professor Abílio, quando o assunto versa sobre Matemática, é imprescindível.

Hoje, diante de qualquer livro dessa matéria, os alunos daquela época não folheiam duas páginas sem que surja a lembrança desse fenômeno chamado Abílio França Valente, um português na Matemática.

Agradeço aos netos dos professores Abílio França Valente e Eulália do Prado Valente, Ricardo e Roberto, pela valiosa colaboração no que diz respeito à cessão das fotos que ilustram esta matéria.









Um comentário:

  1. Nossos professores , sejam do primário ou ginásio ou até de faculdade, sem dúvidas,foram pessoas inesquecíveis. A rigidez da minha professora de Matemática , dona Maria,seguia a exemplo de Sr. Abílio, esse método interativo de educar e construir futuros cidadãos... ;)

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